domingo, 19 de julho de 2009

Crime e Castigo, de Fiódor Dostoiévski


Primeira parte

“É incrível que, quando tenho em mente um projeto tão arriscado, me preocupem tais ninharias!”, cogitava ele com um sorriso singular. “É axiomático...Tudo está nas mãos de um homem e ele o deixa escapar por covardia. Estou propenso a crer que o que mais tememos é o que nos tira nossos hábitos. Mas a ando só a divagar e é por divagar tanto que nada faço. É verdade que eu poderia aduzir mais esta razão: é porque nada faço que divago tanto. Há um mês que me acostumei a falar a sós, parado num canto dias inteiros, preocupado com disparates.”
página 8.

“É absolutamente necessário chamar sobre mim a menor atenção possível. As coisas mais insignificantes têm, às vezes, maior importância e é geralmente por isso que a gente se perde...”
página 9.

“Aliás, em gera, para conhecermos uma pessoa, é preciso termos convivido com ela, observando-a a cada momento; do contrário, cometem-se erros de apreciação, que por vezes são difíceis de corrigir.”
página 42.

Segunda parte

Dava-se nele um fenômeno inteiramente novo. No seu foro íntimo compreendia ou – o que era muito pior – sentia que estava para sempre afastado do convívio dos homens, que lhe era defesa qualquer expansão sentimental, como a de há pouco, que lhe seria impossível sustentar uma conversação qualquer, não só com essa gente da polícia, mas até com seus próprios parentes. Nunca, até então, experimentara sensação tão cruel.
página 115.

“Vamos, a taça está cheia, é necessário bebê-la; que martírio de vida! Como isso é estúpido, Senhor!...”
página 122.

“– Oh! Meu prezado amigo. Princípios! És feito de princípios, como o fosses de primaveras, que se renovam todos os anos. Não te aventures sozinho neste campo. Se um homem é um bom sujeito, basta este princípio para nele me fiar.”
página 147.

“- Insensatez! Não há praticabilidade, agrediu-o Razumikin com essas palavras. Praticabilidade é coisa difícil de encontrar-se, não cai do céu; nos últimos duzentos anos, a humanidade tem vivido divorciada da vida prática. As idéias existem em germe e a tendência para o Bem existe, embora em estágio primário, e a honestidade poderá ser encontrada, apesar das multidões de desonestos. Todavia não há praticabilidade. A praticabilidade anda por baixo.”
página 162.

“Perdão, isso não é um lugar-comum! Por exemplo, se me disserem: “Ama o teu semelhante”, e eu queira seguir este conselho, qual o resultado?, respondeu Lujin com calor. Rasgo a minha capa, dou metade ao próximo e ficamos ambos seminus. Como diz um provérbio nosso: “Quando se perseguem muitas lebres ao mesmo tempo, não se apanha nenhuma”. A ciência, pelo seu lado, manda-me atender apenas à minha pessoa, uma vez que tudo neste mundo se baseia no interesse pessoal. Aquele que segue esta doutrina cuida convenientemente dos seus interesses e fica com a capa inteira. Afirma a economia política que tanto mais sólida e próspera será uma sociedade, quanto maior for o número de fortunas particulares ou de capas inteiras dentro dessa sociedade. Portanto, trabalhando apenas para mim, trabalho para todos os outros, do que resulta o meu próximo vir a obter mais do que a metade de uma capa, e isso sem favores particulares ou individuais mas em conseqüência do progresso geral. A idéia é simples; infelizmente levou muito tempo a propagar-se e a triunfar da quimera e do devaneio; e, no entanto, não julgo que seja necessária uma grande inteligência para compreender...”
página 163.

Terceira parte

“Mas, ainda mesmo que tivesse razão, quando efetivamente eu estivesse resolvida a uma baixeza, não era uma crueldade da tua parte falares-me dessa maneira? Por que exiges de mim de mim um heroísmo que tu talvez não tenhas? Isso é tirania, é uma violência! Se prejudico alguém, sou eu a prejudicada...”
página 251.

Ordinariamente sentimo-nos um pouco constrangidos quando um homem que mal conhecemos manifesta uma tal curiosidade de nos escutar; mas nosso embaraço é ainda maior se o assunto que temos a tratar acontece ser aos nossos próprios olhos pouco digno da atenção de outros. página 269.

“-Não estou errado! Mostrar-te-ei os panfletos. Qualquer coisa para eles é “influência do meio”: esta é sua frase favorita. Da qual se conclui que, se a sociedade estivesse alicerçada em bases sólidas, todo crime cessaria imediatamente, pois nada haveria contra o que se protestar e todos os homens tornar-se-iam justos instantaneamente. A natureza humana não é levada em conta, é excluída, simplesmente negada. Não reconhecem que a humanidade desenvolvendo-se por um processo histórico-biológico há de se tornar afinal uma sociedade normal. Eles, porém, acreditam que um sistema social criado por um cérebro matemático é capaz de organizar, perfeita e imediatamente, a humanidade e fazê-la justa e sem pecados num ápice, com maior rapidez que qualquer evolução biológica. Por isso, instintivamente odeiam a história (nada há senão horror e estupidez) e explicam-na toda como uma estupidez! Por isso, odeiam a evolução natural da vida! Não desejam um espírito vivo! O espírito vivo necessita de vida, o espírito não obedece às leis mecânicas, é objeto de suspeita, o espírito é retrógrado. Mas o que desejam, embora tenha cheiro de cadáver e seja feito de borracha, é uma humanidade, no mínimo, sem vida própria, sem vontade, servil e que não se revolte! Por fim, chegam a reduzir tudo à construção de paredes, ao planejamento de cômodos e corredores de um falanstério! O falanstério existe, mas nossa natureza humana não se adapta a ele — necessita de vida, ainda não completou o ciclo vital, ainda é muito cedo para ir para o cemitério! Pela lógica, não podem ultrapassar a natureza. A lógica pressupõe três possibilidades, mas existem milhões. Desprezem um milhão, reduzam tudo à questão do conforto. Esta é a melhor solução para o problema. É sedutoramente positivo e não necessita de elucubrações. Grande coisa: não precisarem pensar! Todos os segredos da vida em duas páginas impressas.”
página 276.

Quarta parte

“- Apesar da melhor boa vontade, Avdótia Románovna, há certas injúrias que não se podem esquecer. Em tudo há um limite que é perigoso ultrapassar, porque uma vez que tal se faça é impossível voltar atrás.”
página 324.

Quinta parte

“Ouve, Sônia, eu dizia sempre comigo: visto que sabes que os outros são tolos, por que não procuras ser mais inteligente? Depois, reconheci que, para esperar o mundo ser inteligente, seria preciso ter grande paciência. Mais tarde convenci-me de que esse momento nunca chegaria; que os homens não mudarão e que se perde tempo a querer modificá-los! Sim, é isso! É uma lei de sua natureza...Sei agora, Sônia, que para os homens o senhor é quem possui uma inteligência poderosa. Quem ousa muito tem razão aos olhos dele. Aquele que os provoca e os despreza impõe-se ao seu respeito. É o que se tem visto sempre e sempre se verá!”
página 433.

“Sua idéia era de que nada existe de doença física nos loucos, e que a doença mental é, por assim dizer, um defeito de lógica, de julgamento, uma visão incorreta das coisas. Gradualmente mostrava aos loucos seus erros e, pode acreditar nisto, dizem que obteve sucesso! Mas como também usara argumentos psicológicos, não se sabe em que proporção o sucesso é devido a tal tratamento...Isso em minha opinião.”
página 440.

Sexta parte

“Eu sei que é um cético, mas abandone-se, sem raciocinar, à corrente da vida; ela o levará a qualquer parte. Aonde? Não se inquiete com isso; irá ter a um porto qualquer. Qual? Ignoro-o; creio somente que o senhor ainda tem muito tempo para viver.”
página 476.

“O senhor não observa bastante, Ródion. Mas há ainda outra coisa: tenho observado que em São Petersburgo muitas pessoas andam nas ruas monologando. É uma cidade de lunáticos. Se tivéssemos médicos, juristas e filósofos, poderiam fazer aqui estudos bem curiosos, cada um na sua especialidade. Não há lugar onde a alma humana seja submetida a influências tão estranhas. A ação do clima só por si já é funesta. Desgraçadamente, São Petersburgo é o centro administrativo do país, e o seu caráter deve refletir-se sobre toda a Rússia.”
página 483.

“Nada no mundo é mais duro de falar que a verdade e nada mais cômodo que a lisonja. Se há um centésimo de falsidade na verdade, isso acarretará discórdia e confusão; porém, se tudo é falso na lisonja, esta é agradável e ouvida com satisfação, que, pode ser baixa, mas não deixa de ser uma satisfação. Não obstante seja vil a lisonja, pelo menos sua metade parecerá certamente verdade.
página 493.

“Não estou condenando-o. Por favor, não pense isso, mesmo porque não é de minha alçada. Uma pequenina teoria específica também interveio – uma teoria específica -, a que divide a humanidade, como sabe, em massa bruta e pessoas superiores, isto é, em pessoas não atingidas pela lei, dada a superioridade, pessoas que fazem leis para a massa. Teoricamente é ótima, une théorie comme une autre. Napoleão o impressionou muito, foi o que o moveu – muitas pessoas de gênio não hesitaram em praticar o mal, espezinharam a lei, sem se incomodarem.”
página 508.

“- É verdade que não procedi com as regras da estética! Decididamente não entendo por que é mais glorioso bombardear uma cidade que matar alguém a machado! A preocupação estética é o primeiro sinal de fraqueza! Nunca o senti melhor do que hoje e cada vez compreendo menos qual é o meu crime! Nunca me senti mais forte, mais convencido do que agora!”
página 535.

Editora Ediouro, 1998.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

O Estrangeiro, de Albert Camus

Primeira parte

Isto me permitiria viver em Paris e viajar durante parte do ano.
- Você é novo e acho que essa vida lhe agradaria.
Disse que sim, mas que no fundo tanto fazia. Perguntou-me, depois, se eu não estava interessado em uma mudança. Respondi que nunca se muda de vida; que, em todo caso, todas se equivaliam, e que a minha aqui não me desagradava em absoluto. Mostrou-se descontente, ponderando que eu respondia sempre à margem das questões, que não tinha ambição e que isto era desastroso nos negócios. Voltei então para o meu trabalho. Teria preferido não o aborrecer, mas não via razão alguma para mudar minha vida. Pensando bem, não era infeliz. Quando era estudante, tinha muitas ambições desse gênero. Mas, quando tive de abandonar os estudos, compreendi muito depressa que essas coisas não tinham real importância.
página 45.

Falei-lhe, então, sobre a proposta do patrão e Marie disse que gostaria de conhecer Paris. Contei-lhe que vivera lá durante algum tempo, e ela me perguntou como era.
- É uma cidade suja. Há pombos e pátios escuros. As pessoas têm a pele branca.´
página 46.

Masson queria cair no mar, mas a mulher e Raymond não queriam ir. Descemos os três e Marie atirou-se logo na água. Masson e eu esperamos um pouco. Ele falava devagar e notei que tinha o hábito de completar tudo quanto dizia por “e digo mais”, mesmo quando, no fundo, nada acrescentava ao sentido da frase.
página 54.

No mesmo momento, o suor acumulado nas sobrancelhas correu de repente pelas pálpebras, recobrindo-as com um véu morno e espesso. Meus olhos ficaram cegos por trás desta cortina de lágrimas e sal. Sentia apenas os símbolos do sol na testa e, de modo difuso, a lâmina brilhante da faca sempre diante de mim. Esta espada incandescente corroia as pestanas e penetrava meus olhos doloridos. Foi então que tudo vacilou. O mar trouxe um sopro espesso e ardente. Pareceu-me que o céu se abria em toda a sua extensão deixando chover fogo. Todo o meu ser se retesou e crispei a mão sobre o revólver. O gatilho cedeu, toquei o ventre polido da coronha e foi aí, no barulho ao mesmo tempo seco e ensurdecedor, que tudo começou.
página 63.

Segunda parte

Foi pouco depois que ela me escreveu. E foi a partir desse momento que começaram as coisas de que jamais gostei de falar. De qualquer forma, não vale a pena exagerar, e isto foi mais fácil para mim do que para outros. No início de minha detenção, no entanto, o mais difícil é que tinha pensamentos de homem livre.
página 80.

Assim, com as horas de sono, as recordações, a leitura da minha ocorrência e a alternância da luz e da sombra, o tempo passou. Tinha lido que na prisão se acabava perdendo a noção do tempo. Mas para mim isto não fazia muito sentido. Não compreendera ainda até que ponto os dias podiam ser, ao mesmo tempo, curtos e longos. Longos para viver, sem dúvida, mas de tal modo distendidos que acabavam por se sobrepor uns aos outros. E nisso perdiam o nome. As palavras ontem ou amanhã eram as únicas que conversavam um sentido para mim.
página 84.

Compreendi que ele ia falar novamente em mamãe e senti ao mesmo tempo até que ponto isso me entediava. Perguntou-me por que a mandara para o asilo. Respondi que era porque não tinha dinheiro para mantê-la comigo e cuidar dela. Perguntou-me se, pessoalmente, sofrera com o fato, e respondi que nem mamãe nem eu esperávamos mais nada um do outro, nem, aliás, de ninguém, e que nós dois nos havíamos habituado às nossas vidas.
página 91.

A sessão foi suspensa. Ao sair do Palácio da Justiça para entrar no carro, reconheci por um instante o cheiro e a cor da tarde de verão. Na obscuridade da minha prisão rolante, reencontrei um a um, no fundo do meu cansaço, todos os ruídos familiares de uma cidade que eu amava e de uma certa hora em que me ocorria ficar contente.
página 101.

Pela terceira vez, recusei-me a receber o capelão. Nada tenho a dizer-lhe, não tenho vontade de falar, de qualquer forma irei vê-lo muito em breve. O que me interessa neste momento é fugir à engrenagem, saber se o inevitável pode ter uma saída.
página 112.

Censurava-me, então, por não ter prestado bastante atenção às histórias de execuções. Devíamos interessar-nos sempre por estas questões. Nunca se sabe o que pode acontecer.
página 112.

Era de madrugada que viriam, eu sabia. Ocupei as minhas noites, em suma, a esperar por esta madrugada. Nunca gostei de ser surpreendido. Quando me acontece alguma coisa, prefiro estar presente. Eis por que no final acabei por só dormir um pouco de dia, enquanto ao longo de minhas noites esperava pacientemente que a luz nascesse na vidraça do céu. O mais difícil era a hora duvidosa em que eu sabia que eles geralmente agiam. Depois da meia-noite, esperava e ficava à espreita. Nunca o meu ouvido captara tantos ruídos e distinguira sons tão tênues. Aliás, posso afirmar que de certo modo tive sorte durante todo este período, pois nunca cheguei a ouvir passos. Mamãe costumava dizer que nunca se é completamente infeliz. Concordava com ela na prisão quando o céu se coloria e um novo dia se insinuava na minha cela. Porque poderia ter ouvido passos e meu coração poderia ter arrebentado.
página 116.

Editora Record, 2007.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

O Lobo da Estepe, de Hermann Hesse

Anotações de Harry Haller

Só para loucos


Esta manhã encontrei uma frase em Novalis...Permita-me que lha mostre? O senhor também há de gostar de vê-la.
Fez-me entrar no quarto, que recendia a forte cheiro de tabaco, tirou um livro de uma pilha deles, folheou-o à procura.
- Esta aqui também é boa, muito boa – disse. – Veja só esta frase: “O homem devia orgulhar-se da dor; toda dor é uma manifestação de nossa elevada estirpe.” Magnífico! Oitenta anos antes de Nietzsche! Mas não é esta a passagem que eu pensava mostrar-lhe... Espere, aqui está. Ouça: “A maioria dos homens não quer nadar antes que o possa fazer.” Não é engraçado? Naturalmente, não querem nadar. Nasceram para andar na terra e não para a água. E, naturalmente, não querem pensar: foram criados para viver e não para pensar! Isto mesmo! E quem pensa, quem faz do pensamento sua principal atividade, pode chegar muito longe com isso, mas sem dúvida estará confundindo a terra com a água e um dia morrerá afogado.
página 26.

Solidão é independência, com ela eu sempre sonhara e a obtivera afinal após tantos anos. Era fria, oh! sim!, mas também era silenciosa e grande como o frio espaço silente em que giram as estrelas.
página 48.

Tratado do Lobo da Estepe

Só para loucos


Mesmo aquele que não tem em seu interior um lobo, nem por isso pode ser considerado mais feliz. E mesmo a mais infeliz das existências tem os seus momentos luminosos e suas pequenas flores de ventura a brotrar entre a areia e as pedras.
página 54.

A esse propósito há que acrescentar algo. Muita gente existe que se assemelha a Harry; especialmente muitos artistas pertencem a essa classe de homens. Todas essas pessoas têm duas almas, dois seres em seu interior; há neles uma parte divina e uma satânica, há sangue materno e paterno, há capacidade para a ventura e para a desgraça, tão contrapostas e hostis como eram o lobo e o homem dentro de Harry. E esses homens, para os quais a vida não oferece repouso, experimentam às vezes, em seus raros momentos de felicidade, tanta força e tão indízivel beleza, a espuma do instante de ventura emerge às vezes tão alta e deslumbradora sobre o mar da dor, que sua luz, espargindo radiância, vai atingir a outros com seu encantamento. A isso se devem, a essa preciosa e momentânea espuma sobre o mar do sofrimento, todas aquelas obras artísticas em que o homem solitário e sofredor se eleva por uma hora tão alto sobre o seu próprio destino, que sua felicidade brilha como uma estrela, e parece a todos os que a vêem como algo eterno e como se fosse seu próprio sonho de ventura. Todas essas pessoas, sejam quais forem seus atos e obras, não têm propriamente uma vida, ou seja, sua vida carece de essência e de forma, não são heróis, nem artistas, nem pensadores da maneira como os demais são juízes, doutores, sapateiros ou mestres; sua existência é um movimento de fluxo e refluxo, está infeliz e dolorosamente partida e é sinistra e insensata, se não tivermos propensos a ver um sentido precisamente naqueles raros acontecimentos, ações, pensamentos e obras que brilham às vezes sobre o caos de semelhante vida. Entre os homens dessa espécie surgiu o perigoso e terrível pensamento de que, talve, toda a vida do homem não passa de um espantoso erro, de um aborto brutal da mãe primeva, um cruel e selvagem intento frustrado da Natureza. Mas entre eles surgiu também a idéia de que o homem talvez não seja apenas um animal dotado de razão, mas o filho de Deus destinado à imortalidade.
página 55.

O “burguês”, como um estado sempre presente da vida humana, não é outra coisa senão a tentativa de uma transigência, a tentativa de um equilibrado meio-termo entre os inumeráveis extremos e pares opostos da conduta humana. Tomemos, por exemplo, qualquer dessas dualidades, como o santo e o libertino, e nossa comparação se esclarecerá em seguida. O homem tem a possibilidade de entregar-se por completo ao espiritual, à tentativa de aproximar-se de Deus, ao ideal de santidade. Também tem, por outro lado, a possibilidade de entregar-se inteiramente à vida dos instintos, aos anseios da carne, e dirigir seus esforços no sentido de satisfazer os prazeres momentâneos. Um dos caminhos conduz à santidade, ao martírio do espírito, à entrega a Deus. O outro caminho conduz à libertinagem, ao martírio da carne, à entrega à corrupção. O burguês tentará caminhar entre ambos, no meio-termo. Nunca se entregará nem se abandonará à embriaguez ou ao ascetismo; nunca será mártir nem consentirá em sua destruição, mas, ao contrário, seu ideal não é a entrega, mas a conservação de seu eu, seu esforço não significa nem santidade nem libertinagem, o absoluto lhe é insuportável, quer certamente servir a Deus, mas também entregar-se ao êxtase, quer ser virtuoso, mas quer igualmente passar bem e viver comodamente sobre a terra. Em resumo, tenta plantar-se em meio aos dois extremos, numa zona temperada e vantajosa, sem grandes tempestades ou borrascas, e o consegue ainda que à custa daquela intensidade de vida e de sentimentos que uma existência extremada e sem reservas permite.
página 62.

Aqui: vou lhe dar um pedacinho desta carne para você provar. Assim, abra a boca! Oh, que bobão você é! Fica olhando em torno para ver se estão observando você comer do meu garfo! Não ligue para isso, filho pródigo, não farei um escândalo. Mas pobre daquele que não pode se dar a um prazer sem pedir antes a permissão dos outros.
página 124.

Quer fosse alta perspicácia quer simples ingenuidade, quem vivia assim tão no presente e sabia apreciar tão cuidadosa e amigavelmente cada florzinha do caminho, estava acima de tudo e a vida nada podia contra ela.
página 124.

- Em geral os animais são tristes – prosseguiu. – E quando um homem está triste...bem entendido, não quando sente uma dor de dentes ou tenha perdido dinheiro...mas porque vê, por uma hora, como é tudo, como é a vida, e está triste de verdade, sempre se parece um pouco com os animais. Então se mostra não apenas triste, mas também mais justo e mais belo que de hábito.
página 126.

Porque eu sou como você. Porque estou tão só e amo tão pouco a vida, as pessoas e a mim mesma quanto você; e, como você, não posso levar nada disso a sério. Sempre houve pessoas assim, que exigem da vida o que ela tem de mais alto e não podem confomar-se com sua estupidez e crueldade.
página 138.

- Eu não duvido, Harry. Mas quanto a sofrer na vida, disso tenho muita experiência. Você se surpreende por eu ser infeliz e conseguir dançar e estar tão segura de mim nas coisas superficiais da vida. E eu, meu amigo, me surpreendo por sabê-lo desiludido da vida sendo capaz de dominar tão profundamente as mais belas coisas do espírito, da arte e do pensamento! Eis por que fomos arrastados um para o outro e por que nos fizemos irmãos. Vou ensinar-lhe a dançar, a brincar e a sorrir, e ainda assim permanecer infeliz. E você me ensinará a pensar e a saber, e ainda assim permanecer descontente. Sabe que somos ambos filhos do demônio?
página 139.

Era, além disso, inimigo do poder e da exploração, mas tinha no banco muitas ações de empresas industriais, cujos dividendos recebia sem que lhe doesse a consciência. E assim para tudo o mais, Harry Haller se atribuíra um prodigioso papel de idealista e desprezador do mundo, de melancólico solitário e de profeta tonitruante, mas no íntimo era um burguês, capaz de censurar uma vida como a de Hermínia; lamentava-se das noites perdidas nos restaurantes e do dinheiro que neles gastara; tinha remorsos e suspirava não exatamente por sua emancipação e aperfeiçoamento, mas ao contrário para voltar aos velhos tempos em que seus problemas espirituais ainda lhe causavam prazer e lhe traziam fama.
página. 142.

- Bem, na minha opinião não há nenhum sentido em falar-se a respeito de música. Nunca falo sobre isso. Que responder, então, às suas observações eruditas e judiciosas? O senhor tem toda a razão naquilo que afirma. Mas, veja, eu sou um músico, não um erudito, e no que diz respeito à música acho que não há a menor importância em estar alguém com a razão. A música não depende de estarmos com razão, de termos bom gosto ou erudição musical e tudo o mais.
página 144.

Durante aquela caminhada noturna pensei também em minhas singulares relações com a música e voltei novamente a reconhecer que essas fatais relações com a música eram o destino de toda a intelectualidade alemã. No espírito alemão domina o direito maternal, a sujeição natural na forma a uma hegemonia da música, como não se conheceu em nenhum outro povo. Nós, os intelectuais, em lugar de nos defendermos varonilmente contra isso e reduzir a obediência ao espírito, ao logos e à palavra, sonhamos todos com uma linguagem sem palavras, que possa exprimir o inexprímivel, que possa representar o irrepresentável. Em vez de tocar seu instrumento da forma mais fiel e honesta possível, o intelectual alemão está sempre em luta com a palavra e a razão e fazendo a corte à música.
página 148.

Você, Harry, sempre foi um artista e um pensador, um homem cheio de fé e de alegria, sempre no encalço do grande e do eterno, nunca se contentando com o bonito e o mesquinho. Mas quanto mais foi despertado pela vida e conduzido para dentro de si mesmo, tanto maior se tornou sua necessidade, tanto mais fundo mergulhou no sofrimento, na timidez, no desespero; mergulhou até o pescoço, e tudo o que no passado conheceu, amou e venerou como belo e santo, toda a sua fé de então nos homens e em nosso elevado destino, nada pôde ajudá-lo, tudo perdeu o valor e se fez em pedaços. Sua fé não encontrou ais ar que respirasse. E a morte por asfixia é uma morte muito dura. Não é verdade, Harry?
página 162.

Editora Record, 1995.