sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

O Estrangeiro, de Albert Camus

Primeira parte

Isto me permitiria viver em Paris e viajar durante parte do ano.
- Você é novo e acho que essa vida lhe agradaria.
Disse que sim, mas que no fundo tanto fazia. Perguntou-me, depois, se eu não estava interessado em uma mudança. Respondi que nunca se muda de vida; que, em todo caso, todas se equivaliam, e que a minha aqui não me desagradava em absoluto. Mostrou-se descontente, ponderando que eu respondia sempre à margem das questões, que não tinha ambição e que isto era desastroso nos negócios. Voltei então para o meu trabalho. Teria preferido não o aborrecer, mas não via razão alguma para mudar minha vida. Pensando bem, não era infeliz. Quando era estudante, tinha muitas ambições desse gênero. Mas, quando tive de abandonar os estudos, compreendi muito depressa que essas coisas não tinham real importância.
página 45.

Falei-lhe, então, sobre a proposta do patrão e Marie disse que gostaria de conhecer Paris. Contei-lhe que vivera lá durante algum tempo, e ela me perguntou como era.
- É uma cidade suja. Há pombos e pátios escuros. As pessoas têm a pele branca.´
página 46.

Masson queria cair no mar, mas a mulher e Raymond não queriam ir. Descemos os três e Marie atirou-se logo na água. Masson e eu esperamos um pouco. Ele falava devagar e notei que tinha o hábito de completar tudo quanto dizia por “e digo mais”, mesmo quando, no fundo, nada acrescentava ao sentido da frase.
página 54.

No mesmo momento, o suor acumulado nas sobrancelhas correu de repente pelas pálpebras, recobrindo-as com um véu morno e espesso. Meus olhos ficaram cegos por trás desta cortina de lágrimas e sal. Sentia apenas os símbolos do sol na testa e, de modo difuso, a lâmina brilhante da faca sempre diante de mim. Esta espada incandescente corroia as pestanas e penetrava meus olhos doloridos. Foi então que tudo vacilou. O mar trouxe um sopro espesso e ardente. Pareceu-me que o céu se abria em toda a sua extensão deixando chover fogo. Todo o meu ser se retesou e crispei a mão sobre o revólver. O gatilho cedeu, toquei o ventre polido da coronha e foi aí, no barulho ao mesmo tempo seco e ensurdecedor, que tudo começou.
página 63.

Segunda parte

Foi pouco depois que ela me escreveu. E foi a partir desse momento que começaram as coisas de que jamais gostei de falar. De qualquer forma, não vale a pena exagerar, e isto foi mais fácil para mim do que para outros. No início de minha detenção, no entanto, o mais difícil é que tinha pensamentos de homem livre.
página 80.

Assim, com as horas de sono, as recordações, a leitura da minha ocorrência e a alternância da luz e da sombra, o tempo passou. Tinha lido que na prisão se acabava perdendo a noção do tempo. Mas para mim isto não fazia muito sentido. Não compreendera ainda até que ponto os dias podiam ser, ao mesmo tempo, curtos e longos. Longos para viver, sem dúvida, mas de tal modo distendidos que acabavam por se sobrepor uns aos outros. E nisso perdiam o nome. As palavras ontem ou amanhã eram as únicas que conversavam um sentido para mim.
página 84.

Compreendi que ele ia falar novamente em mamãe e senti ao mesmo tempo até que ponto isso me entediava. Perguntou-me por que a mandara para o asilo. Respondi que era porque não tinha dinheiro para mantê-la comigo e cuidar dela. Perguntou-me se, pessoalmente, sofrera com o fato, e respondi que nem mamãe nem eu esperávamos mais nada um do outro, nem, aliás, de ninguém, e que nós dois nos havíamos habituado às nossas vidas.
página 91.

A sessão foi suspensa. Ao sair do Palácio da Justiça para entrar no carro, reconheci por um instante o cheiro e a cor da tarde de verão. Na obscuridade da minha prisão rolante, reencontrei um a um, no fundo do meu cansaço, todos os ruídos familiares de uma cidade que eu amava e de uma certa hora em que me ocorria ficar contente.
página 101.

Pela terceira vez, recusei-me a receber o capelão. Nada tenho a dizer-lhe, não tenho vontade de falar, de qualquer forma irei vê-lo muito em breve. O que me interessa neste momento é fugir à engrenagem, saber se o inevitável pode ter uma saída.
página 112.

Censurava-me, então, por não ter prestado bastante atenção às histórias de execuções. Devíamos interessar-nos sempre por estas questões. Nunca se sabe o que pode acontecer.
página 112.

Era de madrugada que viriam, eu sabia. Ocupei as minhas noites, em suma, a esperar por esta madrugada. Nunca gostei de ser surpreendido. Quando me acontece alguma coisa, prefiro estar presente. Eis por que no final acabei por só dormir um pouco de dia, enquanto ao longo de minhas noites esperava pacientemente que a luz nascesse na vidraça do céu. O mais difícil era a hora duvidosa em que eu sabia que eles geralmente agiam. Depois da meia-noite, esperava e ficava à espreita. Nunca o meu ouvido captara tantos ruídos e distinguira sons tão tênues. Aliás, posso afirmar que de certo modo tive sorte durante todo este período, pois nunca cheguei a ouvir passos. Mamãe costumava dizer que nunca se é completamente infeliz. Concordava com ela na prisão quando o céu se coloria e um novo dia se insinuava na minha cela. Porque poderia ter ouvido passos e meu coração poderia ter arrebentado.
página 116.

Editora Record, 2007.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

O Lobo da Estepe, de Hermann Hesse

Anotações de Harry Haller

Só para loucos


Esta manhã encontrei uma frase em Novalis...Permita-me que lha mostre? O senhor também há de gostar de vê-la.
Fez-me entrar no quarto, que recendia a forte cheiro de tabaco, tirou um livro de uma pilha deles, folheou-o à procura.
- Esta aqui também é boa, muito boa – disse. – Veja só esta frase: “O homem devia orgulhar-se da dor; toda dor é uma manifestação de nossa elevada estirpe.” Magnífico! Oitenta anos antes de Nietzsche! Mas não é esta a passagem que eu pensava mostrar-lhe... Espere, aqui está. Ouça: “A maioria dos homens não quer nadar antes que o possa fazer.” Não é engraçado? Naturalmente, não querem nadar. Nasceram para andar na terra e não para a água. E, naturalmente, não querem pensar: foram criados para viver e não para pensar! Isto mesmo! E quem pensa, quem faz do pensamento sua principal atividade, pode chegar muito longe com isso, mas sem dúvida estará confundindo a terra com a água e um dia morrerá afogado.
página 26.

Solidão é independência, com ela eu sempre sonhara e a obtivera afinal após tantos anos. Era fria, oh! sim!, mas também era silenciosa e grande como o frio espaço silente em que giram as estrelas.
página 48.

Tratado do Lobo da Estepe

Só para loucos


Mesmo aquele que não tem em seu interior um lobo, nem por isso pode ser considerado mais feliz. E mesmo a mais infeliz das existências tem os seus momentos luminosos e suas pequenas flores de ventura a brotrar entre a areia e as pedras.
página 54.

A esse propósito há que acrescentar algo. Muita gente existe que se assemelha a Harry; especialmente muitos artistas pertencem a essa classe de homens. Todas essas pessoas têm duas almas, dois seres em seu interior; há neles uma parte divina e uma satânica, há sangue materno e paterno, há capacidade para a ventura e para a desgraça, tão contrapostas e hostis como eram o lobo e o homem dentro de Harry. E esses homens, para os quais a vida não oferece repouso, experimentam às vezes, em seus raros momentos de felicidade, tanta força e tão indízivel beleza, a espuma do instante de ventura emerge às vezes tão alta e deslumbradora sobre o mar da dor, que sua luz, espargindo radiância, vai atingir a outros com seu encantamento. A isso se devem, a essa preciosa e momentânea espuma sobre o mar do sofrimento, todas aquelas obras artísticas em que o homem solitário e sofredor se eleva por uma hora tão alto sobre o seu próprio destino, que sua felicidade brilha como uma estrela, e parece a todos os que a vêem como algo eterno e como se fosse seu próprio sonho de ventura. Todas essas pessoas, sejam quais forem seus atos e obras, não têm propriamente uma vida, ou seja, sua vida carece de essência e de forma, não são heróis, nem artistas, nem pensadores da maneira como os demais são juízes, doutores, sapateiros ou mestres; sua existência é um movimento de fluxo e refluxo, está infeliz e dolorosamente partida e é sinistra e insensata, se não tivermos propensos a ver um sentido precisamente naqueles raros acontecimentos, ações, pensamentos e obras que brilham às vezes sobre o caos de semelhante vida. Entre os homens dessa espécie surgiu o perigoso e terrível pensamento de que, talve, toda a vida do homem não passa de um espantoso erro, de um aborto brutal da mãe primeva, um cruel e selvagem intento frustrado da Natureza. Mas entre eles surgiu também a idéia de que o homem talvez não seja apenas um animal dotado de razão, mas o filho de Deus destinado à imortalidade.
página 55.

O “burguês”, como um estado sempre presente da vida humana, não é outra coisa senão a tentativa de uma transigência, a tentativa de um equilibrado meio-termo entre os inumeráveis extremos e pares opostos da conduta humana. Tomemos, por exemplo, qualquer dessas dualidades, como o santo e o libertino, e nossa comparação se esclarecerá em seguida. O homem tem a possibilidade de entregar-se por completo ao espiritual, à tentativa de aproximar-se de Deus, ao ideal de santidade. Também tem, por outro lado, a possibilidade de entregar-se inteiramente à vida dos instintos, aos anseios da carne, e dirigir seus esforços no sentido de satisfazer os prazeres momentâneos. Um dos caminhos conduz à santidade, ao martírio do espírito, à entrega a Deus. O outro caminho conduz à libertinagem, ao martírio da carne, à entrega à corrupção. O burguês tentará caminhar entre ambos, no meio-termo. Nunca se entregará nem se abandonará à embriaguez ou ao ascetismo; nunca será mártir nem consentirá em sua destruição, mas, ao contrário, seu ideal não é a entrega, mas a conservação de seu eu, seu esforço não significa nem santidade nem libertinagem, o absoluto lhe é insuportável, quer certamente servir a Deus, mas também entregar-se ao êxtase, quer ser virtuoso, mas quer igualmente passar bem e viver comodamente sobre a terra. Em resumo, tenta plantar-se em meio aos dois extremos, numa zona temperada e vantajosa, sem grandes tempestades ou borrascas, e o consegue ainda que à custa daquela intensidade de vida e de sentimentos que uma existência extremada e sem reservas permite.
página 62.

Aqui: vou lhe dar um pedacinho desta carne para você provar. Assim, abra a boca! Oh, que bobão você é! Fica olhando em torno para ver se estão observando você comer do meu garfo! Não ligue para isso, filho pródigo, não farei um escândalo. Mas pobre daquele que não pode se dar a um prazer sem pedir antes a permissão dos outros.
página 124.

Quer fosse alta perspicácia quer simples ingenuidade, quem vivia assim tão no presente e sabia apreciar tão cuidadosa e amigavelmente cada florzinha do caminho, estava acima de tudo e a vida nada podia contra ela.
página 124.

- Em geral os animais são tristes – prosseguiu. – E quando um homem está triste...bem entendido, não quando sente uma dor de dentes ou tenha perdido dinheiro...mas porque vê, por uma hora, como é tudo, como é a vida, e está triste de verdade, sempre se parece um pouco com os animais. Então se mostra não apenas triste, mas também mais justo e mais belo que de hábito.
página 126.

Porque eu sou como você. Porque estou tão só e amo tão pouco a vida, as pessoas e a mim mesma quanto você; e, como você, não posso levar nada disso a sério. Sempre houve pessoas assim, que exigem da vida o que ela tem de mais alto e não podem confomar-se com sua estupidez e crueldade.
página 138.

- Eu não duvido, Harry. Mas quanto a sofrer na vida, disso tenho muita experiência. Você se surpreende por eu ser infeliz e conseguir dançar e estar tão segura de mim nas coisas superficiais da vida. E eu, meu amigo, me surpreendo por sabê-lo desiludido da vida sendo capaz de dominar tão profundamente as mais belas coisas do espírito, da arte e do pensamento! Eis por que fomos arrastados um para o outro e por que nos fizemos irmãos. Vou ensinar-lhe a dançar, a brincar e a sorrir, e ainda assim permanecer infeliz. E você me ensinará a pensar e a saber, e ainda assim permanecer descontente. Sabe que somos ambos filhos do demônio?
página 139.

Era, além disso, inimigo do poder e da exploração, mas tinha no banco muitas ações de empresas industriais, cujos dividendos recebia sem que lhe doesse a consciência. E assim para tudo o mais, Harry Haller se atribuíra um prodigioso papel de idealista e desprezador do mundo, de melancólico solitário e de profeta tonitruante, mas no íntimo era um burguês, capaz de censurar uma vida como a de Hermínia; lamentava-se das noites perdidas nos restaurantes e do dinheiro que neles gastara; tinha remorsos e suspirava não exatamente por sua emancipação e aperfeiçoamento, mas ao contrário para voltar aos velhos tempos em que seus problemas espirituais ainda lhe causavam prazer e lhe traziam fama.
página. 142.

- Bem, na minha opinião não há nenhum sentido em falar-se a respeito de música. Nunca falo sobre isso. Que responder, então, às suas observações eruditas e judiciosas? O senhor tem toda a razão naquilo que afirma. Mas, veja, eu sou um músico, não um erudito, e no que diz respeito à música acho que não há a menor importância em estar alguém com a razão. A música não depende de estarmos com razão, de termos bom gosto ou erudição musical e tudo o mais.
página 144.

Durante aquela caminhada noturna pensei também em minhas singulares relações com a música e voltei novamente a reconhecer que essas fatais relações com a música eram o destino de toda a intelectualidade alemã. No espírito alemão domina o direito maternal, a sujeição natural na forma a uma hegemonia da música, como não se conheceu em nenhum outro povo. Nós, os intelectuais, em lugar de nos defendermos varonilmente contra isso e reduzir a obediência ao espírito, ao logos e à palavra, sonhamos todos com uma linguagem sem palavras, que possa exprimir o inexprímivel, que possa representar o irrepresentável. Em vez de tocar seu instrumento da forma mais fiel e honesta possível, o intelectual alemão está sempre em luta com a palavra e a razão e fazendo a corte à música.
página 148.

Você, Harry, sempre foi um artista e um pensador, um homem cheio de fé e de alegria, sempre no encalço do grande e do eterno, nunca se contentando com o bonito e o mesquinho. Mas quanto mais foi despertado pela vida e conduzido para dentro de si mesmo, tanto maior se tornou sua necessidade, tanto mais fundo mergulhou no sofrimento, na timidez, no desespero; mergulhou até o pescoço, e tudo o que no passado conheceu, amou e venerou como belo e santo, toda a sua fé de então nos homens e em nosso elevado destino, nada pôde ajudá-lo, tudo perdeu o valor e se fez em pedaços. Sua fé não encontrou ais ar que respirasse. E a morte por asfixia é uma morte muito dura. Não é verdade, Harry?
página 162.

Editora Record, 1995.

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

História Universal da Infâmia, de Jorge Luis Borges

O Espantoso Redentor Lazarus Morell

Os homens

Os donos dessa terra operosa e desses negros eram ociosos e ávidos senhores de cabeleira pomposa, que moravam em amplos casarões à beira do rio – sempre com um pórtico de pinheiro branco em falso estilo grego. Um bom escravo custava-lhes mil dólares e não durava muito. Alguns cometiam a ingratidão de ficar doentes e morrer. Era preciso tirar dessa gente incerta o maior rendimento.
página 23.

O método

Os cavalos roubados num estado e vendidos noutro foram apenas uma digressão na carreira delinqüente de Morell, mas prefiguraram o método que hoje lhe assegura um bom lugar na História Universal da Infâmia. Esse método é único, não apenas pelas circunstâncias sui generis que o produziram como também pela vileza que exige, por seu fatal manejo da esperança e por seu gradual desenvolvimento, semelhante à dolorosa evolução de um pesadelo.
página 24.

O Incrível Impositor Tom Castro

Sabemos que era filho de um açougueiro, que sua infância conheceu a miséria insípida dos bairros baixos de Londres e que sentiu o chamamento do mar. O fato não é insólito. Run away to the sea – fugir para o mar – é a ruptura tradicional inglesa da autoridade paterna, a iniciação heróica. A geografia recomenda e até mesmo a Escritura (Salmo CVII): “Os que descem ao mar em navios, os que comerciam nas grandes águas, esses vêem as obras de Deus e suas maravilhas no abismo”.
página 29.

Ad Majorem Dei Gloriam

O bem-sucedido reconhecimento que parece cumprir uma tradição das tragédias clássicas devia coroar esta história, deixando três felicidades asseguradas ou pelo menos prováveis: a da mãe verdadeira, a do filho apócrifo e tolerante, a do conspirador recompensado pela apoteose providencial de sua astúcia. O Destino (tal é o nome que damos à infinita operação incessante de milhares de causas embaralhadas) não decidiu dessa forma.
página 32.

A Víuva Ching, Pirata

Fala Kia-King, O Jovem Imperador

Em meados de 1809, foi baixado um edito imperial, do qual transcrevo a primeira e a última parte. Muitos criticaram seu estilo.

Homens desventurados e malignos, homens que desprezam o pão, homens que não atendem ao clamor dos cobradores de impostos e dos órfãos, homens em cuja roupa interior estão figurados a fênix e o dragão, homens que negam a verdade dos livros impressos, homens que deixam suas lágrimas correr olhando para o norte perturbam a paz de nossos rios e a antiga confiança de nossos mares. Em barcos avariados e sem firmeza afrontam noite e dia a tempestade. Seu objetivo não é favorável: não são nem foram nunca os verdadeiros amigos do navegante. Longe de lhe prestar ajuda, atacam-no com ferocíssimo impulso e o levam à ruína, à mutilação ou à morte. Violam assim as leis naturais do Universo, de sorte que os rios transbordam, as margens se alagam, os filhos se voltam contra os pais e os princípios de umidade e de seca são alterados...
...Por conseguinte, te recomendo o castigo, almirante Kuo-Lang. Não esqueças que a clemência é um atributo imperial e que seria presunção num súdito procurar assumi-la. Sê cruel, sê justo, sê obedecido, sê vitorioso.
página 38.

O Provedor de Iniqüidades Monk Eastman

A Batalha de Rivington

Que sentiram os protagonistas dessa batalha? Primeiro, creio, a brutal convicção de que o estrépito insensato de cem revólveres ia aniquilá-los em seguida; segundo, creio, a não menos errônea certeza de que, se a descarga inicial não os tinha derrubado, eram invulneráveis. O certo é que lutaram com fervor, amparados pelo ferro e pela foice.
página 45.

O descortês mestre-de-cerimônias Kotsuké no Suké

O infame deste capítulo é o descortês mestre-de-cerimônias Kotsuké no Suké, infausto funcionário que motivou a degradação e a morte do senhor da torre de Ako e que não se quis eliminar como um cavalheiro quando a justa vingança o ameaçou. É homem que merece a gratidão de todos os homens, porque despertou preciosas manifestações de lealdade e foi a negra e necessária ocasião de uma empresa imortal.
página 53.

O Homem de Satsuma

Entre os peregrinos que chegam há um rapaz cansado e cheio de pó que deve ter vindo de longe. Prostra-se ante o monumento de Oishi Kuranosuké, o conselheiro, e diz em voz alta: “Eu te vi atirado na porta de um lupanar de Quioto e não pensei que estavas meditando a vingança de teu senhor, e te acreditei um soldado sem fé e te cuspi no rosto. Vim dar-te uma satisfação”. Disse isso e praticou o haraquiri.
O prior se condoeu de sua valentia e lhe deu sepultura no lugar onde os capitães repousam.
Este é o final da história dos quarenta e sete homens leais – só que ela não tem final, porque nós, os outros homens, que não somos leais talvez, mas que nunca perderemos de todo a esperança de sê-lo, continuaremos a honrá-los com palavras.
página 57.

O Tintureiro Mascarado Hákim de Merv

Os espelhos abomináveis

A terra que habitamos é um erro, uma incompetente paródia. Os espelhos e a parternidade são abomináveis, porque a multiplicam e afirmam. A náusea é a virtude fundamental. Duas disciplinas (cuja escolha o Profeta deixava livre) podem conduzir-nos a ela: a abstinência e a dissolução, o exercício da carne ou sua castidade.
O paraíso e o inferno de Hákim não eram menos desesperados. “Aos que negam a Palavra, aos que negam o Adorado Véu e o Rosto”, diz uma imprecação da Rosa Escondida ainda existente, “prometo um inferno maravilhoso, porque cada um deles reinará sobre 999 impérios de fogo, e em cada império 999 montes de fogo, e em cada monte 999 torres de fogo, e em cada torre 999 pisos de fogo, e em cada piso 999 leitos de fogo, e em cada leito estará ele e 999 forma de fogo (que terão sua face e sua voz) o torturarão para sempre”. Em outro lugar, corrobora: “Aqui na vida padeceis num corpo; na morte e na Retribuição, em inumeráveis. O paraíso é menos concreto. Sempre é noite e existem cisternas de pedra, e a felicidade desse paraíso é a felicidade peculiar das despedidas, da renúncia e dos que sabem que dormem”.
página 63.

Editora Globo, 1993.

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

A Náusea, de Jean-Paul Sartre

Diário

Segunda-feira, 19 de janeiro de 1932

Já não posso duvidar de que alguma coisa me aconteceu. Isso veio como uma doença, não como uma certeza comum, não como uma evidência. Instalou-se pouco a pouco, sorrateiramente: senti-me um pouco estranho, um pouco incômodo, e isso foi tudo. Uma vez no lugar, não mais se mexeu, ficou quieto e pude me persuadir de que não tinha nada, que era um alarme falso. E eis que agora a coisa se expande.
página 17.

Portanto, ocorreu uma mudança durante essas últimas semanas. Mas onde? É uma mudança abstrata que não se fixa em nada. Fui eu que mudei? Se não fui eu, então foi esse quarto, essa cidade, essa natureza; é preciso decidir.
Acho que fui eu que mudei: é a solução mais simples. A mais desagradável também. Mas enfim tenho que reconhecer que sou sujeito a essas transformações súbitas. O que acontece é que penso muito raramente; então, uma infinidade de pequenas metamorfoses se acumulam em mim, sem que eu me dê conta, e aí, um belo dia, ocorre uma verdadeira revolução. Foi isso que deu à minha vida esse aspecto vacilante, incoerente.
página 18.

Esse jovens me maravilham: bebendo seu café, contam histórias inteligíveis e verossímeis. Se lhes perguntamos o que fizeram ontem, não se perturbam: informam-nos em duas palavras. No lugar deles, eu gaguejaria. É verdade que faz já muito tempo que ninguém se preocupa com o que faço. Quando se vive sozinho, já nem mesmo se sabe o que é narrar: a verossimilhança desaparece junto com os amigos. Também os acontecimentos deixamos correr; vemos surgir bruscamente pessoas que falam e que se vão, mergulhamos em histórias sem pé nem cabeça: seríamos testemunhas execráveis. Em compensação, tudo o que é inverossímil, tudo o que não seria acreditado nos cafés, não nos escapa.
página 22.

Sofre com avareza. Também deve ser avara em relação a seus prazeres. Pergunto-me se algumas vezes não deseja se libertar dessa dor monótona, desses resmungos que recomeçam tão logo pára de cantar, se não deseja sofrer muito de uma vez por todas, se afogar no desespero. Mas, de qualquer maneira, não poderia fazê-lo: está atada.
página 28.

As coisas não vão bem! Absolutamente não vão bem: estou com ela, com a sujeira, com a Náusea. E dessa vez é diferente: isso me veio num café. Até agora os cafés eram meu único refúgio, porque estão cheios de gente e são bem iluminados: já não haverá nem isso; quando me sentir encurralado em meu quarto, já não saberei aonde ir.
página 37.

Então fui acometido pela Náusea, me deixei cair no banco, já nem sabia onde estava; via as cores girando lentamente em torno de mim, sentia vontade de vomitar. E é isso: a partir daí a Náusea não me deixou, se apossou de mim.
página 38.

Sua camisa de algodão azul sobressai alegremente contra a parede cor de chocolate. Também isso me dá a Náusea. Ou antes, é a Náusea. A Náusea não está em mim: sinto-a ali na parede, nos suspensórios, por todo lado ao redor de mim. Ela forma um todo com o café: sou eu que estou nela.
página 39.

Estou sozinho, a maioria das pessoas voltaram para seus lares; estão lendo o jornal da tarde e ouvindo rádio. O domingo que termina deixou-lhes um gosto de cinzas e seu pensamento se volta para a segunda-feira. Mas para mim não existem segunda-feira nem domingo: existem dias que se atropelam desordenadamente e, além disso, lampejos como esse.
página 87.

Só que esse Rollebon me irrita. Finge-se de misterioso nas mínimas coisas. Que terá ido fazer na Ucrânia no mês de agosto de 1804? Fala de sua viagem em termos velados:
“A posteridade julgará se meus esforços, que o sucesso não podia recompensar, mereciam uma renegação brutal e humilhações que tive que suportar em silêncio, quando dispunha de meios para calar os escarnecedores e amedrontá-los.”.
página 92.

Pego sua carta em minha carteira. Ela não escreveu “meu querido Antoine”. No fim da carta não há também nenhuma fórmula de cortesia: “Preciso vê-lo. Anny.” Nada que possa me informar sobre seus sentimentos. Não posso me queixar: reconheço nisso seu amor pelo perfeito. Ela sempre queria realizar “momentos perfeitos”. Se o instante não se prestava para isso, se desinteressava de tudo, a vida desaparecia de seus olhos, ela se arrastava preguiçosamente como uma meninona na idade ingrata.
página 98.

Eu sentia que o êxito do que se empreendia estava em minhas mãos: o instante tinha um sentido obscuro que era preciso elucidar e completar: determinados gestos tinham que ser feitos, determinadas palavras pronunciadas: o peso de minha responsabilidade me esmagava, eu arregalava os olhos e não via nada, debatia-me em meio aos ritos que Anny na hora e esgarçava-os com meus grandes braços como teias de aranha. Nesses momentos ela me odiava.
página 99.

O passado é um luxo de proprietários.
Onde poderia eu conservar o meu? Não se pode colocar o passado no bolso; preciso ter uma casa, arrumá-lo nela. Só possuo meu corpo; um homem inteiramente sozinho, só com seu corpo, não pode reter as lembranças; elas passam através dele. Não deveria me queixar: tudo o que quis foi ser livre.
página 102.

Não é um velho maluco: tem medo. De que tem medo? Quando queremos entender alguma coisa, colocamo-nos diante dela, sozinhos, sem auxílio; todo o passado do mundo de nada adiantaria. E depois ela desaparece e o que pudemos entender desaparece com ela.
página 108.

Aquele homem só vivera para si mesmo. Por um castigo severo e merecido, ninguém viera lhe fechar os olhos no leito de morte. Esse quadro me dava um último aviso: ainda era tempo, eu podia retroceder.
página 126.

Compreendi então tudo que nos separava: o que eu podia pensar a seu respeito não o atingia; não passava de psicologia como a que se faz nos romances. Mas seu julgamento me trespassava como um gládio e questionava até meu direito de existir. E era verdade, sempre me apercebera disso: não tinha o direito de existir. Surgira por acaso, existia como uma pedra, uma planta, um micróbio. Minha vida se desenvolvia ao acaso e em todos os sentidos. Enviava-me às vezes sinais vagos; outras vezes eu percebia apenas um zumbido sem importância.
página 129.

Não era preciso muito tempo para adivinhar a razão de seu prestígio: era amado porque compreendia tudo; podia dizer-se tudo a ele. Parecia-se um pouco com Renan, em suma, mas com mais distinção. Era desses que dizem:
“Os socialistas? Muito bem, vou mais longe do que eles.” Quem o acompanhava por esse caminho perigoso, logo tinha que abandonar, arrepiando-se, a família, a pátria, o direito de propriedade, os valores mais sagrados. Duvidava-se até por um momento do direito de comandar da elite burguesa. Mais um passo e subitamente tudo era restabelecido, maravilhosamente fundamentado em sólidas razões, à antiga. Dando-se volta, quem o acompanhava distinguia atrás de si os socialistas já longe, muito pequenos, agitando seus lenços e gritando: “Esperem-nos.”
Eu álias sabia, por Wakefield, que o Mestre gostava, como ele mesmo dizia com um sorriso, de “dar à luz as almas”. Tendo permanecido jovem, rodeava-se de juventude: recebia com freqüência jovens de boa família que se destinavam à medicina. Wakefield almoçara várias vezes em sua casa. Terminada a refeição passava-se para o fumoir. O professor tratava como homens adultos aqueles estudantes que já não estavam muito longe de seus primeiros cigarros: oferecia-lhes charutos. Estirava-se num divã e falava demoradamente, os olhos semicerrados, rodeado pela multidão ávida de discípulos. Evocava recordações, contava anedotas, das quais extraía uma moralidade picante e profunda. E, se entre esses jovens bem-educados, surgia algum de caráter um pouco mais rebelde, Parrottin se interessava especialmente por ele. Fazia-o falar, ouvia-o atentamente, fornecia-lhe idéias, temas de meditação. Sucedia forçosamente que um dia o rapaz, transbordando de idéias generosas, excitado pela hostilidade dos seus, cansado de pensar sozinho e contra todos, pedia ao Professor que o recebesse a sós; então, balbuciando de timidez, contava-lhe seus pensamentos mais íntimos, suas indignações, suas esperanças. Parrottin apertava-o contra o peito. Dizia: “Compreendo-o, compreendi-o desde o primeiro dia.” Conversavam, Parrottin ia mais longe, mais longe ainda – tão longe que o rapaz tinha dificuldade em acompanhá-lo. Com algumas conversas dessa espécie era possível constatar uma melhora sensível no jovem revoltado. Ele adquiria uma visão clara de si mesmo, aprendia a conhecer os vínculos profundos que o ligavam a sua família, a seu meio; compreendia, enfim, o admirável papel da elite. E para terminar, como por encanto, a ovelha desgarrada, que acompanhara Parrottin passo a passo, se encontrava de volta no redil, esclarecida, arrependida. “Ele curou mais almas”, concluía Wakefield, “do que curei corpos.”
página 133.

Levanto-me de chofre: se pelo menos pudesse parar de pensar, já seria melhor. Os pensamentos são o que há de mais insípido. Mais insípido ainda do que a carne. Prolongam-se interminavelmente e deixam um gosto esquisito.
página 150.

Por exemplo, essa espécie de ruminação dolorosa: existo – sou eu que a alimento. Eu. O corpo vive sozinho, uma vez que começou a viver. Mas o pensamento, sou eu que o continuo, que o desenvolvo. Existo. Penso que existo. Oh! Que serpentina comprida esse sentimento de existir – e eu a desenrolo muito lentamente...
página 150.

Tudo está cheio, existência por todo lado, densa e pesada e suave. Mas, para além de toda essa suavidade, inacessível, bem perto, tão longe, lamentavelmente, jovem, impiedoso e sereno, existe esse...esse rigor.
página 155.

Percorro a sala com o olhar e um asco violento me invade. Que estou fazendo aqui? Porque me meti a discutir sobre o humanismo? Por que estão aqui essas pessoas? Porque comem? É verdade que elas não sabem que existem. Sinto vontade de ir embora, de ir a algum lugar onde pudesse estar realmente em meu lugar, onde me encaixasse...Mas meu lugar não é em parte alguma; eu sou demais.
página 181.

Os homens. É preciso amar os homens. Os homens são admiráveis. Sinto vontade de vomitar – e de repente aqui está ela: a Náusea.
Uma bela crise: me sacode de alto a baixo. Há uma hora que a sentia se aproximar, só que não queria confessá-lo a mim mesmo.
página 181.

Então é isso a Náusea: essa evidência ofuscante? Como quebrei a cabeça! Como escrevi a respeito dela! Agora sei: Existo – o mundo existe – e sei que o mundo existe. Isso é tudo. Mas tanto faz para mim. É estranho que tudo me seja tão indiferente: isso me assusta. Foi a partir do famigerado dia em que quis fazer ricocheteios. Ia atirar o seixo, olhei para ele, foi então que tudo começou: senti que ele existia. E a seguir, depois disso, houve outras Náuseas; de quando em quando os objetos se põem a existir em nossa mão.
página 182.

O verdadeiro mar é frio e negro, cheio de animais; rasteja sob essa fina película verde que é feita para enganar as pessoas. Os silfos que me rodeiam caíram no logro: só vêem a fina película, é ela que prova a existência de Deus.
página 184.

Não posso dizer que me sinta aliviado nem contente; ao contrário, me sinto esmagado. Só que meu objetivo foi atingido: sei o que desejava saber; compreendi tudo o que me aconteceu a partir do mês de janeiro. A Náusea não me abandonou e não creio que me abandone tão cedo; mas já não estou submetido a ela, já não se trata de uma doença, nem de um acesso passageiro: a Náusea sou eu.
página 187.

O essencial é a contingência. O que quero dizer é que, por definição, a existência não é a necessidade. Existir é simplesmente estar presente; os entes aparecem, deixam que os encontremos, mas nunca podemos deduzi-los. Creio que há pessoas que compreenderam isso. Só que tentaram superar essa contingência inventando um ser necessário e causa de si próprio. Ora, nenhum ser necessário pode explicar a existência: a contingência não é uma ilusão, uma aparência que se pode dissipar; é o absoluto, por conseguinte a gratuidade perfeita. Tudo é gratuito: esse jardim, essa cidade e eu próprio. Quando ocorre que nos apercebamos disso, sentimos o estômago embrulhado, e tudo se põe a flutuar como outra noite no Rendez-vous des Cheminots: é isso a Náusea; é isso que os Salafrários – os do Coteau Vert e os outros – tentam esconder de si mesmos com sua idéia de direito. Mas que mentira pobre: ninguém possui o direito; eles são inteiramente gratuitos, como os outros homens, não conseguem deixar de se sentir demais. E em si mesmos, secretamente, são demais, isto é, amorfos e vagos, tristes.
página 193.

Pensar que há imbecis que tiram consolo das belas-artes. Como minha tia Bigeois: “Os prelúdios de Chopin representaram uma tal ajuda para mim na morte de seu pobre tio.” E as salas de concerto transbordam de humilhados, de ofendidos que, com os olhos fechados, procuram transformar seus rostos pálidos em antenas receptoras. Imaginam que os sons captados correm neles, suaves e nutrientes, e que seus sofrimentos se transformam em música, como os do jovem Werther; pensam que a beleza é compassiva para com eles. Imbecis.
página 252.

E também eu quis ser. Aliás, só quis isso; eis a chave de minha vida: no fundo de todas essas tentativas que parecem desvinculadas, encontro o mesmo desejo: expulsar a existência para fora de mim, esvaziar os instantes de sua gordura, torcê-los, secá-los, me purificar, endurecer, para produzir finalmente o som claro e preciso de uma nota de saxofone. Isso poderia até constituir um apólogo: era uma vez um pobre sujeito que se enganou de mundo. Existia, com as outras pessoas, no mundo dos jardins públicos, dos bistrôs, das cidades comerciais, e queria se persuadir de que vivia alhures, atrás da tela dos quadros, com os doges de Tintoretto, com os dignos florentinos de Gozzoli, atrás das páginas dos livros, com Fabrice Del Dongo e Julien Sorel, atrás dos discos de gramofone, com os lamentos longos e secos do jazz. E depois, após ter se comportado muito tempo como imbecil, compreendeu, abriu os olhos e viu que havia um mal-entendido: ele estava num bistrô, exatamente, diante de um copo de cerveja morna. Ficou prostrado no banco; pensou: sou um imbecil. E nesse exato momento, do outro lado da existência, nesse outro mundo que se pode ver de longe, mas sem nunca se aproximar dele, uma pequena melodia começou a dançar, a cantar: “É preciso ser como eu; é preciso sofrer em compasso.”
Página 254.

A voz canta:

Some of these days
You’ll miss me honey

Editora Record/Altaya, Éditions Gallimard, 1938.

domingo, 27 de julho de 2008

Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago

A consciência moral, que tantos insensatos têm ofendido e muitos mais renegado, é coisa que existe e existiu sempre, não foi uma invenção dos filósofos do Quaternário, quando a alma mal passava ainda de um projecto confuso. Com o andar dos tempos, mais as actividades da convivência e as trocas genéticas, acabámos por meter a consciência na cor do sangue e no sal das lágrimas, e, como se tanto fosse pouco, fizemos dos olhos uma espécie de espelhos virados para dentro, com o resultado, muitas vezes, de mostrarem eles sem reserva o que estávamos tratando de negar com a boca. Acresce a isto, que é geral, a circunstância particular de que, em espíritos simples, o remorso causado por um mal feito se confunde freqüentemente com medos ancestrais de todo o tipo, donde resulta que o castigo do prevaricador acaba por ser, sem pau nem pedra, duas vezes o merecido.
página 26.

Naturalmente, o primeiro cego já disse à mulher, em voz sussurrada, que um dos internados é o patife que lhes levou o carro, Imagina tu a coincidência, mas, como entretanto tinha sabido que o pobre diabo está mal do ferimento da perna, teve a generosidade de acrescentar, Basta para o seu castigo. E ela, por causa da grande tristeza de estar cega e da grande alegria de ter recuperado o marido, a alegria e a tristeza podem andar unidas, não são como a água e o azeite, nem se lembrou do que tinha dito dois dias antes, que daria um ano de vida para que o malandro, palavra sua, cegasse. E se alguma última sombra de rancor ainda lhe andava a turvar o espírito, de certeza se dissipou quando o ferido gemeu lastimosamente.
página 67.

Os bons e os maus resultados dos nossos ditos e obras vão-se distribuindo, supõe-se que de uma forma bastante uniforme e equilibrada, por todos os dias do futuro, incluindo aqueles, infindáveis, em que já cá não estaremos para poder comprová-lo, para congratular-nos ou pedir perdão, aliás, há quem diga que isso é que é a imortalidade de que tanto se fala.
página 84.

Se não formos capazes de viver inteiramente como pessoas, ao menos façamos tudo para não viver inteiramente como animais, tantas vezes o repetiu, que o resto da camarata acabou por transformar em máxima, em sentença, em doutrina, em regra de vida, aquelas palavras, no fundo simples e elementares.
página 119.

Felizmente, como a história humana tem mostrado, não é raro que uma coisa má traga consigo uma coisa boa, fala-se menos das coisas más trazidas pelas coisas boas, assim andam as contradições do nosso mundo, merecem umas mais consideração do que outras.
página 207.

A velha do primeiro andar abriu devagar a janela, não quer que se saiba que tem esta fraqueza sentimental, mas da rua não sobe nenhum ruído, já se foram, deixaram este sítio por onde quase ninguém passa, a velha deveria de estar contente, desta maneira não terá de dividir com os outros as suas galinhas e os seus coelhos, deveria de estar e não está, dos olhos cegos saem-lhe duas lágrimas, pela primeira vez perguntou se tinha alguma razão para continuar a viver. Não achou reposta, as respostas não vêm sempre que são precisas, e mesmo sucede muitas vezes que ter de ficar simplesmente à espera delas é a única resposta possível.
página 249.

Se eu voltar a ter olhos, olharei verdadeiramente os olhos dos outros, como se estivesse a ver-lhes a alma, A alma, perguntou o velho da venda preta, Ou o espírito, o nome pouco importa, foi então que, surpreendentemente, se tivermos em conta que se trata de pessoa que não passou por estudos adiantados, a rapariga dos óculos escuros disse, Dentro de nós há uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos.
página 262.

Nenhum dos outros fez comentários, nenhum deu parabéns, nenhum exprimiu votos de felicidade eterna, em verdade o tempo não está para festejos e ilusões, e quando as decisões são tão graves como esta parece ter sido, não surpreenderia até que alguém tivesse pensado que é preciso ser-se cego para comportar-se desta maneira, o silêncio ainda é o melhor aplauso.
página 292.

Irei até onde for capaz, não posso prometer mais, Um dia, quando compreendermos que nada de bom e útil podemos já fazer pelo mundo, deveríamos ter a coragem de sair simplesmente da vida.
página 293.

Nunca se pode saber de antemão de que são capazes as pessoas, é preciso esperar, dar tempo ao tempo, o tempo é que manda, o tempo é o parceiro que está a jogar do outro lado da mesa, e tem na mão todas as cartas do baralho, a nós compete-nos inventar os encartes com a vida, a nossa.
página 303.

Editora Companhia das Letras, 1995.

Trechos do filme Janela da Alma, João Jardim e Walter Carvalho. Estúdio Ravina Filmes, Distribuição Copacabana Filmes, Brasil, 2002.




sexta-feira, 27 de junho de 2008

Felicidade Clandestina, de Clarice Lispector


Felicidade Clandestina

Era um livro grosso, meu Deus, era um livro para se ficar vivendo com ele, comendo-o, dormindo-o. E completamente acima de minhas posses. Disse-me que eu passasse pela sua casa no dia seguinte e que ela o emprestaria.
Até o dia seguinte eu me transformei na própria esperança da alegria: eu não vivia, eu nadava devagar num mar suave, as ondas me levavam e me traziam.
página 10.

E assim continuou. Quanto tempo? Não sei. Ela sabia que era tempo indefinido, enquanto o fel não escorresse todo de seu corpo grosso. Eu já começara a adivinhar que ela me escolhera para eu sofrer, às vezes adivinho. Mas, adivinhando mesmo, às vezes aceito: como se quem quer me fazer sofrer esteja precisando danadamente que eu sofra.
página 11.

Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre iria ser clandestina para mim. Parece que eu já pressentia. Como demorei! Eu vivia no ar...Havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada.
página 12.

Restos do Carnaval

Ah, está se tornando difícil escrever. Porque sinto como ficarei de coração escuro ao constatar que, mesmo me agregando tão pouco à alegria, eu era de tal modo sedenta que um quase nada já me tornava uma menina feliz.
página 26.

Muitas coisas que me aconteceram tão piores que estas, eu já perdoei. No entanto essa não posso sequer entender agora: o jogo de dados de um destino é irracional? É impiedoso.
página 28.

O ovo e a galinha

E a galinha? O ovo é o grande sacrifício da galinha. O ovo é a cruz que a galinha carrega na vida. O ovo é o sonho inatingível da galinha. A galinha ama o ovo. Ela não sabe que existe o ovo. Se soubesse que tem em si mesma um ovo, ela se salvaria? Se soubesse que tem em si mesma o ovo, perderia o estado de galinha. Ser uma galinha é a sobrevivência da galinha. Sobreviver é a salvação. Pois parece que viver não existe. Viver leva à morte. Então o que a galinha faz é estar permanentemente sobrevivendo. Sobreviver chama-se manter luta contra a vida que é mortal. Ser uma galinha é isso. A galinha tem o ar constrangido.
página 52.

Fiz do meu prazer e da minha dor o meu destino disfarçado. E ter apenas a própria vida é, para quem já viu o ovo, um sacrifício. Como aqueles que, no convento, varrem o chão e lavam a roupa, servindo sem a glória de função maior, meu trabalho é o de viver os meus prazeres e as minhas dores. É necessário que eu tenha a modéstia de viver.
página 55.

Os ovos estalam na frigideira, e mergulhada no sonho preparo o café da manhã. Sem nenhum senso da realidade, grito pelas crianças que brotam de várias camas, arrastam cadeiras e comem, e o trabalho do dia amanhecido começa, gritado e rido e comido, clara e gema, alegria entre brigas, dia que é o nosso sal e nós somos o sal do dia, viver é extremamente tolerável, viver ocupa e distrai, viver faz rir.
E me faz sorrir no meu mistério. O meu mistério é que eu ser apenas um meio, e não um fim, tem-me dado a mais maliciosa das liberdades: não sou boba e aproveito.
página 57.

A legião estrangeira

Mas sentimentos são água de um instante. Em breve – como a mesma água já é outra quando o sol a deixa muito leve, e já outra quando se enerva tentando morder uma pedra, e outra ainda no pé que mergulha – em breve já não tínhamos no rosto apenas aura e iluminação.
página 64.

Os obedientes

Como, por exemplo, quando o marido voltava para casa mais cedo do que de hábito e a esposa ainda não havia regressado de alguma compra ou visita. Para o marido interrompia-se então uma corrente. Ele se sentava cuidadoso para ler o jornal, dentro de um silêncio tão calado que mesmo uma pessoa morta ao lado quebraria. Ele fingindo com severa honestidade uma atenção minuciosa ao jornal, os ouvidos atentos. Nesse momento é que o marido tocava no fundo com pés surpreendidos. Não poderia permanecer muito tempo assim, sem risco de afogar-se, pois tocar no fundo também significa ter a água acima da cabeça. Eram assim os seus momentos concretos. O que fazia com que ele, lógico e sensato, se safasse depressa.
página 84.

Os desastres de Sofia

Meu enleio vem de que um tapete é feito de tantos fios que não posso me resignar a seguir um fio só; meu enredamento vem de que uma história é feita de muitas histórias. E nem todas posso contar – uma palavra mais verdadeira poderia de eco em eco fazer desabar pelo despenhadeiro as minhas altas geleiras. Assim, pois, não falarei mais no sorvedouro que havia em mim enquanto eu devaneava antes de adormecer.
página 100.

Vida nascendo era tão mais sangrento do que morrer. Morrer é ininterrupto. Mas ver matéria inerte lentamente tentar se erguer como um grande morto-vivo...Ver a esperança me aterrorizava, ver a vida me embrulhava o estômago. Estavam pedindo demais de minha coragem só porque eu era corajosa, pediam minha força só porque eu era forte.
página 111.

Não, eu não era engraçada. Sem nem ao menos saber, eu era muito séria. Não, eu não era doidinha, a realidade era o meu destino, e era o que em mim doía nos outros. E, por Deus, eu não era um tesouro. Mas se eu antes já havia descoberto em mim todo o ávido veneno com que se nasce e com que se rói a vida – só naquele instante de mel e flores descobria de que modo eu curava: quem me amasse, assim eu teria curado quem sofresse de mim. Eu era a escura ignorância com suas fomes e risos, com as pequenas mortes alimentando a minha vida inevitável – que podia eu fazer? eu já sabia que eu era inevitável. Mas se eu não prestava, eu fora tudo o que aquele homem tivera naquele momento.
página 115.

Editora Rocco, 1998.





sábado, 14 de junho de 2008

Bartleby, o escrivão. Uma história de Wall Street, de Herman Melville

Pela primeira vez na vida fui invadido por um sentimento opressivo e angustiante de melancolia. Antes havia sentido apenas tristeza, mas nada tão desagradável. Uma obrigação moral com a humanidade levava-me à depressão. Uma melancolia fraternal! Pois tanto eu quanto Bartleby éramos filhos de Adão. Lembrei-me das sedas brilhantes e dos rostos radiantes que vira durante o dia, bem vestidos, deslizando como cisnes pelo Mississippi que era a Broadway. Comparei-os com o copista lívido e pensei comigo mesmo: Ah! A felicidade procura a luz, por isso acreditamos que o mundo é alegre, mas a desgraça se esconde longe, por isso acreditamos que o sofrimento não existe. Essas fantasias tristes – sem dúvida, quimeras de uma mente doente e insensata – provocaram em mim pensamentos mais específicos, como as excentricidades de Bartleby. Fui dominado por pressentimentos de descobertas estranhas. O vulto lívido do escrivão apareceu diante de mim, estendido na sua mortalha, em meio a pessoas estranhas e indiferentes.
página 17.

Refletindo sobre essas coisas, somado ao fato recém-descoberto de que fizera do meu escritório a sua moradia, e não me esquecendo da sua melancolia mórbida...refletindo sobre tudo isso, um sentimento de prudência tomou conta de mim. As minhas primeiras emoções tinham sido a melancolia mais pura e a compaixão mais sincera, mas na mesma proporção em que o desamparo de Bartleby crescia na minha fantasia, aquela melancolia se transformava em medo, e a compaixão, em repulsa. É tão verdadeiro e ao mesmo tempo tão terrível o fato de que, ao vermos ou presenciarmos a miséria, os nossos melhores sentimentos são despertados até um certo ponto; mas, em certos casos especiais, não passam disso. Erram os que afirmam que é devido apenas ao egoísmo inerente ao coração humano. Na verdade, provém de uma certa impotência em remediar um mal excessivo e orgânico. Para uma pessoa sensível, a piedade é quase sempre uma dor. Quando afinal percebe que tal piedade não significa um socorro eficaz, o bom senso compele a alma a desvencilhar-se dela. O que vi naquela manhã convenceu-me de que o escrivão era vítima de um mal inato e incurável. Eu podia dar esmolas ao seu corpo, mas o seu corpo não lhe doía; era a sua alma que sofria, e ela estava fora do meu alcance.
página 18.

Quando o prazo findou, espiei por trás do biombo e eis que lá estava Bartleby!
Abotoei o meu casaco, refleti, andei devagar na sua direção, toquei no seu ombro e disse: “Chegou a hora; você tem que ir embora; sinto muito; aqui está o seu dinheiro; mas você tem que ir”.
“Acho melhor não”, respondeu, de costas para mim.
“Mas precisa.”
Permaneceu em silêncio.
página 22.

Editora Cosacnaify, Iª reimpressão, 2005.

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Manuelzão e Miguilim, de João Guimarães Rosa

Poemas

Campo Geral

Quem sabe é pecado a gente ter saudade...
página 21.

Se a gente puder ir devagarinho como precisa, e ninguém não gritar com a gente para ir depressa demais, então eu acho que nunca que é pesado.
página 37.

Mas, a mal, vinha vesprando a hora, o fim do prazo, Miguilim não achava pé em pensamento onde se firmar, os dias não cabiam dentro do tempo. Tudo era tarde!
De siso, devia de rezar, urgente, montão de rezas. Não compunha. Pois então, no espandongado mesmo dessa pressa, era que a reza não dava vontade de se rezar, ele principiava e não conseguia, não agüentava, nervosia, toleimado se atolava todo.
página 60.

Quem sabe, quem sabe, melhor ficasse sozinho – sozinho longe deles parecia estar mais perto de todos de uma vez, pensando neles, no fim, se lembrando, de tudo, tinha tanta saudade de todos.
página 63.

...Eu vou e vou e vou e vou e volto!
Por que se eu for
Por que se eu for
Por que se eu for
hei de voltar...
página 66.

Miguilim, Miguilim, vou ensinar o que agorinha eu sei, demais: é que a gente pode ficar sempre alegre, alegre, mesmo com toda coisa ruim que acontece acontecendo. A gente deve de poder ficar então mais alegre, mais alegre, por dentro!...
Página 108.

Deitou na cama, tapou os ouvidos com as mãos e apertou os olhos no travesseiro – precisava de chorar, toda-a-vida, para não ficar sozinho.
página 109.

Porque o que Miguilim queria era assim como algum sinal do Dito morto ainda no Dito vivo, ou do Dito vivo mesmo no Dito morto. Só a Rosa foi quem uma vez disse que o Dito era uma alminha que via o céu por detrás do morro, e que por isso estava marcado para não ficar muito tempo mais aqui. E disse que o Dito falava com cada pessoa como se ela fosse uma, diferente; mas que gostava de todas, como se todas fossem iguais.
página 113.

Tinha medo de cobra. Medo de morrer, tinha; mesmo a vida sendo triste. Só que não recebia mais medo das pessoas. Tudo era bobagem, o que acontecia e o que não acontecia, assim como o Dito tinha morrido, tudo de repente se acabava em nada. Remancheava. E ele mesmo achava que não gostava de mais ninguém, estirava uma raiva quieta de todos.
página 116.

Mas, mesmo quando não estava pensando conseguido, dentro dele parava uma tristeza: tristeza calada, completa, comum das coisas quando as pessoas foram embora.
página 119.

Os outros têm uma espécie de cachorro farejador, dentro de cada um, eles mesmos não sabem. Isso feito um cachorro, que eles têm dentro deles, é que fareja, todo o tempo, se a gente por dentro da gente está mole, está sujo ou está ruim, ou errado...As pessoas, mesmas, não sabem. Mas, então, elas ficam assim com uma precisão de judiar com a gente...
página 122.


Uma estória de amor

Nem agora chegava a mudar de parecer, do que tinha feito não se arrependia. Essas coisas ocorrem nuns escuros, é custoso de saber se a gente deve se aprovar ou confessar um arrependimento: nos caroços daquele angu, tudo tão misturado, o ruim e o bom. Mas ele não punha em pé o pesar. Estavam de bem, só que, em qualquer novidade, nesta vida, se carece de esperar o costume, para o homem e para o boi. Manuelzão era o das forças, não se queixava.
página 153.

Doía, de se conhecer: que tinha um filho, e não tinha. Mas esse Adelço saíra triste ao avô, ao pai de Manuelzão, que lavrara rude mas só de olhos no chão, debaixo do mando de outros, relambendo sempre seu pedacinho de pobreza, privo de réstia de ambição de vontade. Desgosto...Como ter um remédio que curasse um erro, mudasse a natureza das pessoas?
página 184.

Pegara o agrado de mulheres acontecidas, para o consumo do corpo: esta-aqui, você-ali, maria-hoje-em-dia – eram gado sem marca, como as garirobas, sem dono, do cerrado. Nem não moravam dentro das terras de seu serviço. E ele nunca se descuidara de não gostar demais delas. Isto é, às vezes, tinha gostado. Tinha até chorado, lágrimas, dessas que violão toca. Mas a roda da vida empuxava. Carecia de estreitar os desejos, continuar seus caminhos. O destino calça esporas.
página 188.

Tudo se passava desgovernado, ficar rico era o que era seguro. Rico, para não precisar de se ter medo de que todo o pouco que fosse da gente não estivesse sempre salteado – a casa, a mulher, a vaquinha de leite, as galinhas, a espingarda, o cavalo, o cachorro. Cada vez a gente tem mais medo. A coragem era só para se avançar mais longe, ir fundar lugar noutra parte. Só isso, ah, sempre.
página 196.

Cada um podia viver como queria, fazer o que haja, com o tempo tudo era igual, todo o mundo se acostumava. Trabalhar ou não, a gente nasce para o que faz. Cada um é um. Tudo se podia.
página 197.

Ô mundo, esta vida, quando descansa de ser ruim, é até engraçada.
página, 198.

A música, o inteirado da música, às vezes cativava: bonito como dinheiro...A música derretia o demorado das realidades. Mas dava receio. Assim a música amolecia a sustância de um homem para as lidas, dessorava o rijo de se sobresser. Talvez ela merecesse para se ouvir de noite, em cama deitado – quando as coisas da vida, um pouco da feiúra do corriqueiro, se descascavam, e o pensamento da gente tinha mais licença. Agora, agora, porém, a festa era bobagem: a festa era impossível...
página 220.

Manuelzão saía de lá, queria estar mais simplificado. Mas, debaixo de tão curtas horas, e sentia que estava caído de alturas – das alturas da festa. Tudo era diferente do que devia de ser. Mesmo enquanto se festava, a gente carecia de sofrer também o ramerro dos usos, o mau sempre da vida: uns adoeciam com moléstias, outros se entristeciam, alguém tinha de cuidar das necessidades de todos, rompe reinavam as maçadas, e a gente tinha de precatar os perigos do amanhã, que subia armado contra os fundamentos de hoje. Os outros aceitavam o misturado disso, entravam nus na festa, feito fossem meninos. Mas, ele, Manuelzão, não. Não conseguia. Para ele, o apreciável das coisas tinha de ser honesto limpo, estreito apartado: ou uma festa completa, só festa, todamente! – ou mas então a lida dura, esticada, sem distração, sem descuido nenhum, sem mixórdia! Mais uns enganos. Homem, não suspirava. Mesmo, competia de demonstrar cara satisfeita, não dessem de reparar e falar, desfazendo em sua boa fama. Por pouco, quem sabe até iam dizer: - Festa de Manuelzão, todos se divertem, ele não...Não queria.
página 224.

No princípio do mundo, acendia um tempo em que o homem teve de brigar com todos os outros bichos, para merecer de receber, primeiro, o que era – o espírito primeiro.
página 255.

Editora Nova Fronteira, 13ª edição, 1984.





terça-feira, 15 de abril de 2008

O lustre, de Clarice Lispector

Virgínia jamais saberia que se indagava se uma qualidade numa pessoa excluía a possibilidade de outras, se o que havia dentro do corpo era bastante vivo e estranho a ponto de ser também o seu contrário. Quanto a si própria ela não sabia sequer adivinhar o que podia e o que não podia, o que conseguiria apenas com um bater de pálpebras e o que jamais obteria, mesmo cedendo a vida. Mas a si própria concedia o privilégio de não exigir gestos e palavras para se manifestar. Sentia que embora sem um pensamento, um desejo ou uma lembrança, ela era imponderavelmente aquilo que ela era e que consistia Deus sabe em quê.
página 20.

Agradecia-lhe com uma alegria difícil, frágil e tensa, sentia em_ _ _alguma coisa como o que não se vê de olhos fechados - mas o que não se vê de olhos fechados tem uma existência e uma força, como o escuro, como o escuro, como a ausência, compreendia-se ela assentindo, feroz e muda com a cabeça.
página 44.

Já agora principiava a seguir um sentimento quase silencioso, tão instável que ela cuidadosamente não deveria tomar consciência dele. Nesses mesmos instantes seu corpo vivia plenamente na sala de visitas tanto ela adivinhava a necessidade de rodear de solidão o início erguido na penumbra. Sob uma atitude de calma e dura claridade não se dirigia a ninguém e abandonava-se atenta como a um sonho que se vai esquecer. Atrás de movimentos seguros tentava com perigo e delicadeza tocar no mesmo leve e esquivo, buscar o núcleo feito de um só instante, enquanto a qualidade não pousa em coisas, enquanto o que é sim não se desequilibra em amanhã – e há um sentimento para a frente e outro que decai, o triunfo tênue e a derrota, talvez apenas a respiração. A vida se fazendo, a evolução do ser sem o destino – a progressão da manhã não se dirigindo à noite mas atingindo-a.
Pág. 101

Sem saber, repetia a si própria como numa oração perfeita: cal ferro areia silêncio e purificava-se nessa ausência de homem e de Deus. As palavras encorajadas, a honestidade, a necessidade de se aproximar das pessoas inteligentes e nobres, a necessidade de ser feliz, quase a necessidade de falar antes de morrer, tudo isso parecia erguê-la pelo espaço como se suportasse um jato de ar macio por baixo do corpo e fosse ela própria uma bolha assustada, agradecida, cansada, “arranjando sua vida da melhor maneira possível”.
página 115.

Era um edifício novo, uma estreita caixa de cimento úmido, magra e alta, com janelas quadradas. Sim, fora um período muito triste e sem palavras, sem amigos, sem ninguém com quem trocar compreensões rápidas e amáveis. A impressão de que estava só no mundo era tão séria que ela temia ultrapassar seus próprios conhecimentos, precipitar-se em quê. Seria fácil, em ninguém ao lado e sem um modelo de vida e de pensamento pelo qual se guiar.
página 124.

Como era preciso ser delicada consigo – isto ela aprenderia sempre mais, a cada momento que fosse cumprindo; viver como se sofresse do coração – tateando, dando-se boas notícias suaves, dizendo sim, sim, você tem razão. Porque havia um instante na permissão que alguém se dava que poderia chegar a um estarrecimento seco e tenso, a alguma coisa da qual simplesmente não se conseguiria dizer o fim.
página 197.

Era sua casa, sua casa – ela possuía um lugar que não era a mata nem a estrada escura, nem cansaço e lágrimas, que não era sequer a alegria, que não era o medo alucinado e sem rumo, um lugar que lhe pertencia sem que ninguém o tivesse dito jamais, um lugar onde as pessoas admitiam sem surpresa que ela entrasse, dormisse e comesse, um lugar onde ninguém lhe perguntava se ela tivera medo mas onde a recebiam continuando a comer sob a lâmpada, um lugar onde nos instantes mais graves as pessoas poderiam acordar e talvez sofrer também, um lugar onde se corria assustada depois do arrebatamento, para onde se voltava após a experiência do riso, depois de ter tentado ultrapassar o limite do mundo possível – era sua casa, sua casa.
página 248.

Editora Rocco, 1999.

segunda-feira, 14 de abril de 2008

O Evangelho Segundo Jesus Cristo, de José Saramago

Olhou José o sol, a calcular o tempo de que disporia para ir e voltar, foi dentro da cova a buscar o manto e o alforge, e tornando anunciou, Com Deus me vou e a Deus me confio para que me dê trabalho na sua casa, se para tão grande mercê achar merecimentos em quem nele põe toda a esperança e é honesto artífice. Cruzou a aba direita do manto por cima do ombro esquerdo, acomodou nele o alforge e sem mais palavra meteu pés ao caminho. Em verdade, há horas felizes.
página 92.

Quando os mais novos voltaram da sinagoga e todos se juntaram para comer, só um observador atentíssimo notaria que esta família sofrera há poucas horas a perda do seu chefe natural, marido e pai, e, a não ser Jesus, cujas negras sobrancelhas, crispadas, seguem um pensamento escondido, os mais, incluindo Maria, parecem tranquilos, de uma serenidade composta, porque está escrito, Chora amargamente e irrompe em gritos de dor, observa o luto segundo a dignidade do morto, um dia ou dois por causa da opinião pública, depois consola-te da tua tristeza, e escrito está também, Não entregues o teu coração à tristeza, mas afasta-a e lembra-te do teu fim, não te esqueças dele porque não haverá retorno, em nada aproveitarás ao morto e só causarás dano a ti mesmo. Ainda é cedo para o riso, que a seu tempo virá, como os dias vêm após os dias e as estações após as estações, mas a melhor lição é a do Eclesiastes, que disse, Por isso louvei a alegria, visto não haver nada de melhor para o homem, debaixo do sol, do que comer, beber e divertir-se, é isto que o acompanha no seu trabalho, durante os dias que Deus lhe outorgar debaixo do sol. À tarde, Jesus e Tiago subiram à açoteia da casa para tapar uma palha amassada em barro as fendas do tecto, pelas quais, durante a noite inteira, a água gotejara, a ninguém há-de surpreender que então não se tenha falado de tão humildes pormenores da nossa vida quotidiana, a morte de um homem, inocente ou não, sempre deverá prevalecer sobre todas as coisas.
página 181.

Editora Companhia das Letras, 1991.

domingo, 13 de abril de 2008

Histórias Extraordinárias, de Edgar Allan Poe

Os crimes da Rua Morgue

Não pude senão concordar com toda Paris, que o considerava um mistério insóluvel. Não via maneira alguma pela qual fosse possível descobrir-se o assassino.
- Mediante interrogatórios tão superficiais – disse Dupin – não é possível descobrir-se um meio de encontrá-lo. A polícia parisiense, tão elogiada pela sua perspicácia, é astuta – mas nada mais. Não há método algum em suas diligências, além daquele que é sugerido no momento. Faz uma grande exibição de medidas, mas, não raro, estas se adaptam tão mal aos seus objetivos, que fazem com que nos lembremos de Monsieur Jourdain, pedindo o seu robe-de-chambre, pour mieux entendre la musique 1. Os resultados obtidos não deixam, às vêzes, de ser surpreendentes, mas, na maior parte das vezes, são conseguidos devido a simples diligência e atividade. Quando tais qualidades de nada servem, seus planos fracassam. Vidocq, por exemplo, era um excelente adivinhador, além de ser um homem persistente. Mas, não dispondo de uma inteligência educada, errava continuamente, devido à própria intensidade de suas investigações. Sua visão era prejudicada, por olhar muito de perto o objeto. Podia ver, talvez, dois ou três pontos com extraordinária clareza, mas, ao fazê-lo, perdia, necessariamente, a visão total do assunto. Aí está o defeito de se ser demasiado profundo. A verdade nem sempre se encontra no fundo de um poço. Na realidade, creio que aquilo que mais importa conhecer é, invariavelmente, superficial. A profundidade se encontra nos vales em que a procuramos, e não no cume das montanhas onde ela se acha. As maneiras e as fontes dessa espécie de erro têm um bom exemplo na contemplação dos corpos celestes. Dirigir a uma estrela um rápido olhar, examiná-la obliquamente, voltando para ela as partes exteriores da retina (mais suscetíveis às ligeiras impressões da luz que as interiores), é contemplar a estrela de maneira diferente, é apreciar melhor o seu brilho, brilho que diminui à medida que voltamos nossa visão em cheio para ela. Um número muito maior de raios incide sobre os olhos neste último caso, mas, no primeiro, se obtém uma receptividade mais apurada. Por meio de uma profundidade indevida, perturbamos e debilitamos os nossos pensamentos – e é impossível fazer-se com que a própria Vênus se desvaneça no firmamento, se a fitarmos de maneira muito demorada, muito concentrada ou muito direta.

1. O seu roupão para ouvir melhor a música. (Trata-se de uma fala de Les Bourgeois Gentilhome, de Molière.) (N.do E.)
página 128.

Editora Abril Cultural, 1981.