Virgínia jamais saberia que se indagava se uma qualidade numa pessoa excluía a possibilidade de outras, se o que havia dentro do corpo era bastante vivo e estranho a ponto de ser também o seu contrário. Quanto a si própria ela não sabia sequer adivinhar o que podia e o que não podia, o que conseguiria apenas com um bater de pálpebras e o que jamais obteria, mesmo cedendo a vida. Mas a si própria concedia o privilégio de não exigir gestos e palavras para se manifestar. Sentia que embora sem um pensamento, um desejo ou uma lembrança, ela era imponderavelmente aquilo que ela era e que consistia Deus sabe em quê.
página 20.
Agradecia-lhe com uma alegria difícil, frágil e tensa, sentia em_ _ _alguma coisa como o que não se vê de olhos fechados - mas o que não se vê de olhos fechados tem uma existência e uma força, como o escuro, como o escuro, como a ausência, compreendia-se ela assentindo, feroz e muda com a cabeça.
página 44.
Já agora principiava a seguir um sentimento quase silencioso, tão instável que ela cuidadosamente não deveria tomar consciência dele. Nesses mesmos instantes seu corpo vivia plenamente na sala de visitas tanto ela adivinhava a necessidade de rodear de solidão o início erguido na penumbra. Sob uma atitude de calma e dura claridade não se dirigia a ninguém e abandonava-se atenta como a um sonho que se vai esquecer. Atrás de movimentos seguros tentava com perigo e delicadeza tocar no mesmo leve e esquivo, buscar o núcleo feito de um só instante, enquanto a qualidade não pousa em coisas, enquanto o que é sim não se desequilibra em amanhã – e há um sentimento para a frente e outro que decai, o triunfo tênue e a derrota, talvez apenas a respiração. A vida se fazendo, a evolução do ser sem o destino – a progressão da manhã não se dirigindo à noite mas atingindo-a.
Pág. 101
Sem saber, repetia a si própria como numa oração perfeita: cal ferro areia silêncio e purificava-se nessa ausência de homem e de Deus. As palavras encorajadas, a honestidade, a necessidade de se aproximar das pessoas inteligentes e nobres, a necessidade de ser feliz, quase a necessidade de falar antes de morrer, tudo isso parecia erguê-la pelo espaço como se suportasse um jato de ar macio por baixo do corpo e fosse ela própria uma bolha assustada, agradecida, cansada, “arranjando sua vida da melhor maneira possível”.
página 115.
Era um edifício novo, uma estreita caixa de cimento úmido, magra e alta, com janelas quadradas. Sim, fora um período muito triste e sem palavras, sem amigos, sem ninguém com quem trocar compreensões rápidas e amáveis. A impressão de que estava só no mundo era tão séria que ela temia ultrapassar seus próprios conhecimentos, precipitar-se em quê. Seria fácil, em ninguém ao lado e sem um modelo de vida e de pensamento pelo qual se guiar.
página 124.
Como era preciso ser delicada consigo – isto ela aprenderia sempre mais, a cada momento que fosse cumprindo; viver como se sofresse do coração – tateando, dando-se boas notícias suaves, dizendo sim, sim, você tem razão. Porque havia um instante na permissão que alguém se dava que poderia chegar a um estarrecimento seco e tenso, a alguma coisa da qual simplesmente não se conseguiria dizer o fim.
página 197.
Era sua casa, sua casa – ela possuía um lugar que não era a mata nem a estrada escura, nem cansaço e lágrimas, que não era sequer a alegria, que não era o medo alucinado e sem rumo, um lugar que lhe pertencia sem que ninguém o tivesse dito jamais, um lugar onde as pessoas admitiam sem surpresa que ela entrasse, dormisse e comesse, um lugar onde ninguém lhe perguntava se ela tivera medo mas onde a recebiam continuando a comer sob a lâmpada, um lugar onde nos instantes mais graves as pessoas poderiam acordar e talvez sofrer também, um lugar onde se corria assustada depois do arrebatamento, para onde se voltava após a experiência do riso, depois de ter tentado ultrapassar o limite do mundo possível – era sua casa, sua casa.
página 248.
Editora Rocco, 1999.
terça-feira, 15 de abril de 2008
segunda-feira, 14 de abril de 2008
O Evangelho Segundo Jesus Cristo, de José Saramago
Olhou José o sol, a calcular o tempo de que disporia para ir e voltar, foi dentro da cova a buscar o manto e o alforge, e tornando anunciou, Com Deus me vou e a Deus me confio para que me dê trabalho na sua casa, se para tão grande mercê achar merecimentos em quem nele põe toda a esperança e é honesto artífice. Cruzou a aba direita do manto por cima do ombro esquerdo, acomodou nele o alforge e sem mais palavra meteu pés ao caminho. Em verdade, há horas felizes.
página 92.
Quando os mais novos voltaram da sinagoga e todos se juntaram para comer, só um observador atentíssimo notaria que esta família sofrera há poucas horas a perda do seu chefe natural, marido e pai, e, a não ser Jesus, cujas negras sobrancelhas, crispadas, seguem um pensamento escondido, os mais, incluindo Maria, parecem tranquilos, de uma serenidade composta, porque está escrito, Chora amargamente e irrompe em gritos de dor, observa o luto segundo a dignidade do morto, um dia ou dois por causa da opinião pública, depois consola-te da tua tristeza, e escrito está também, Não entregues o teu coração à tristeza, mas afasta-a e lembra-te do teu fim, não te esqueças dele porque não haverá retorno, em nada aproveitarás ao morto e só causarás dano a ti mesmo. Ainda é cedo para o riso, que a seu tempo virá, como os dias vêm após os dias e as estações após as estações, mas a melhor lição é a do Eclesiastes, que disse, Por isso louvei a alegria, visto não haver nada de melhor para o homem, debaixo do sol, do que comer, beber e divertir-se, é isto que o acompanha no seu trabalho, durante os dias que Deus lhe outorgar debaixo do sol. À tarde, Jesus e Tiago subiram à açoteia da casa para tapar uma palha amassada em barro as fendas do tecto, pelas quais, durante a noite inteira, a água gotejara, a ninguém há-de surpreender que então não se tenha falado de tão humildes pormenores da nossa vida quotidiana, a morte de um homem, inocente ou não, sempre deverá prevalecer sobre todas as coisas.
página 181.
Editora Companhia das Letras, 1991.
página 92.
Quando os mais novos voltaram da sinagoga e todos se juntaram para comer, só um observador atentíssimo notaria que esta família sofrera há poucas horas a perda do seu chefe natural, marido e pai, e, a não ser Jesus, cujas negras sobrancelhas, crispadas, seguem um pensamento escondido, os mais, incluindo Maria, parecem tranquilos, de uma serenidade composta, porque está escrito, Chora amargamente e irrompe em gritos de dor, observa o luto segundo a dignidade do morto, um dia ou dois por causa da opinião pública, depois consola-te da tua tristeza, e escrito está também, Não entregues o teu coração à tristeza, mas afasta-a e lembra-te do teu fim, não te esqueças dele porque não haverá retorno, em nada aproveitarás ao morto e só causarás dano a ti mesmo. Ainda é cedo para o riso, que a seu tempo virá, como os dias vêm após os dias e as estações após as estações, mas a melhor lição é a do Eclesiastes, que disse, Por isso louvei a alegria, visto não haver nada de melhor para o homem, debaixo do sol, do que comer, beber e divertir-se, é isto que o acompanha no seu trabalho, durante os dias que Deus lhe outorgar debaixo do sol. À tarde, Jesus e Tiago subiram à açoteia da casa para tapar uma palha amassada em barro as fendas do tecto, pelas quais, durante a noite inteira, a água gotejara, a ninguém há-de surpreender que então não se tenha falado de tão humildes pormenores da nossa vida quotidiana, a morte de um homem, inocente ou não, sempre deverá prevalecer sobre todas as coisas.
página 181.
Editora Companhia das Letras, 1991.
domingo, 13 de abril de 2008
Histórias Extraordinárias, de Edgar Allan Poe
Os crimes da Rua Morgue
Não pude senão concordar com toda Paris, que o considerava um mistério insóluvel. Não via maneira alguma pela qual fosse possível descobrir-se o assassino.
- Mediante interrogatórios tão superficiais – disse Dupin – não é possível descobrir-se um meio de encontrá-lo. A polícia parisiense, tão elogiada pela sua perspicácia, é astuta – mas nada mais. Não há método algum em suas diligências, além daquele que é sugerido no momento. Faz uma grande exibição de medidas, mas, não raro, estas se adaptam tão mal aos seus objetivos, que fazem com que nos lembremos de Monsieur Jourdain, pedindo o seu robe-de-chambre, pour mieux entendre la musique 1. Os resultados obtidos não deixam, às vêzes, de ser surpreendentes, mas, na maior parte das vezes, são conseguidos devido a simples diligência e atividade. Quando tais qualidades de nada servem, seus planos fracassam. Vidocq, por exemplo, era um excelente adivinhador, além de ser um homem persistente. Mas, não dispondo de uma inteligência educada, errava continuamente, devido à própria intensidade de suas investigações. Sua visão era prejudicada, por olhar muito de perto o objeto. Podia ver, talvez, dois ou três pontos com extraordinária clareza, mas, ao fazê-lo, perdia, necessariamente, a visão total do assunto. Aí está o defeito de se ser demasiado profundo. A verdade nem sempre se encontra no fundo de um poço. Na realidade, creio que aquilo que mais importa conhecer é, invariavelmente, superficial. A profundidade se encontra nos vales em que a procuramos, e não no cume das montanhas onde ela se acha. As maneiras e as fontes dessa espécie de erro têm um bom exemplo na contemplação dos corpos celestes. Dirigir a uma estrela um rápido olhar, examiná-la obliquamente, voltando para ela as partes exteriores da retina (mais suscetíveis às ligeiras impressões da luz que as interiores), é contemplar a estrela de maneira diferente, é apreciar melhor o seu brilho, brilho que diminui à medida que voltamos nossa visão em cheio para ela. Um número muito maior de raios incide sobre os olhos neste último caso, mas, no primeiro, se obtém uma receptividade mais apurada. Por meio de uma profundidade indevida, perturbamos e debilitamos os nossos pensamentos – e é impossível fazer-se com que a própria Vênus se desvaneça no firmamento, se a fitarmos de maneira muito demorada, muito concentrada ou muito direta.
1. O seu roupão para ouvir melhor a música. (Trata-se de uma fala de Les Bourgeois Gentilhome, de Molière.) (N.do E.)
página 128.
Editora Abril Cultural, 1981.
Não pude senão concordar com toda Paris, que o considerava um mistério insóluvel. Não via maneira alguma pela qual fosse possível descobrir-se o assassino.
- Mediante interrogatórios tão superficiais – disse Dupin – não é possível descobrir-se um meio de encontrá-lo. A polícia parisiense, tão elogiada pela sua perspicácia, é astuta – mas nada mais. Não há método algum em suas diligências, além daquele que é sugerido no momento. Faz uma grande exibição de medidas, mas, não raro, estas se adaptam tão mal aos seus objetivos, que fazem com que nos lembremos de Monsieur Jourdain, pedindo o seu robe-de-chambre, pour mieux entendre la musique 1. Os resultados obtidos não deixam, às vêzes, de ser surpreendentes, mas, na maior parte das vezes, são conseguidos devido a simples diligência e atividade. Quando tais qualidades de nada servem, seus planos fracassam. Vidocq, por exemplo, era um excelente adivinhador, além de ser um homem persistente. Mas, não dispondo de uma inteligência educada, errava continuamente, devido à própria intensidade de suas investigações. Sua visão era prejudicada, por olhar muito de perto o objeto. Podia ver, talvez, dois ou três pontos com extraordinária clareza, mas, ao fazê-lo, perdia, necessariamente, a visão total do assunto. Aí está o defeito de se ser demasiado profundo. A verdade nem sempre se encontra no fundo de um poço. Na realidade, creio que aquilo que mais importa conhecer é, invariavelmente, superficial. A profundidade se encontra nos vales em que a procuramos, e não no cume das montanhas onde ela se acha. As maneiras e as fontes dessa espécie de erro têm um bom exemplo na contemplação dos corpos celestes. Dirigir a uma estrela um rápido olhar, examiná-la obliquamente, voltando para ela as partes exteriores da retina (mais suscetíveis às ligeiras impressões da luz que as interiores), é contemplar a estrela de maneira diferente, é apreciar melhor o seu brilho, brilho que diminui à medida que voltamos nossa visão em cheio para ela. Um número muito maior de raios incide sobre os olhos neste último caso, mas, no primeiro, se obtém uma receptividade mais apurada. Por meio de uma profundidade indevida, perturbamos e debilitamos os nossos pensamentos – e é impossível fazer-se com que a própria Vênus se desvaneça no firmamento, se a fitarmos de maneira muito demorada, muito concentrada ou muito direta.
1. O seu roupão para ouvir melhor a música. (Trata-se de uma fala de Les Bourgeois Gentilhome, de Molière.) (N.do E.)
página 128.
Editora Abril Cultural, 1981.
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