sábado, 14 de junho de 2008

Bartleby, o escrivão. Uma história de Wall Street, de Herman Melville

Pela primeira vez na vida fui invadido por um sentimento opressivo e angustiante de melancolia. Antes havia sentido apenas tristeza, mas nada tão desagradável. Uma obrigação moral com a humanidade levava-me à depressão. Uma melancolia fraternal! Pois tanto eu quanto Bartleby éramos filhos de Adão. Lembrei-me das sedas brilhantes e dos rostos radiantes que vira durante o dia, bem vestidos, deslizando como cisnes pelo Mississippi que era a Broadway. Comparei-os com o copista lívido e pensei comigo mesmo: Ah! A felicidade procura a luz, por isso acreditamos que o mundo é alegre, mas a desgraça se esconde longe, por isso acreditamos que o sofrimento não existe. Essas fantasias tristes – sem dúvida, quimeras de uma mente doente e insensata – provocaram em mim pensamentos mais específicos, como as excentricidades de Bartleby. Fui dominado por pressentimentos de descobertas estranhas. O vulto lívido do escrivão apareceu diante de mim, estendido na sua mortalha, em meio a pessoas estranhas e indiferentes.
página 17.

Refletindo sobre essas coisas, somado ao fato recém-descoberto de que fizera do meu escritório a sua moradia, e não me esquecendo da sua melancolia mórbida...refletindo sobre tudo isso, um sentimento de prudência tomou conta de mim. As minhas primeiras emoções tinham sido a melancolia mais pura e a compaixão mais sincera, mas na mesma proporção em que o desamparo de Bartleby crescia na minha fantasia, aquela melancolia se transformava em medo, e a compaixão, em repulsa. É tão verdadeiro e ao mesmo tempo tão terrível o fato de que, ao vermos ou presenciarmos a miséria, os nossos melhores sentimentos são despertados até um certo ponto; mas, em certos casos especiais, não passam disso. Erram os que afirmam que é devido apenas ao egoísmo inerente ao coração humano. Na verdade, provém de uma certa impotência em remediar um mal excessivo e orgânico. Para uma pessoa sensível, a piedade é quase sempre uma dor. Quando afinal percebe que tal piedade não significa um socorro eficaz, o bom senso compele a alma a desvencilhar-se dela. O que vi naquela manhã convenceu-me de que o escrivão era vítima de um mal inato e incurável. Eu podia dar esmolas ao seu corpo, mas o seu corpo não lhe doía; era a sua alma que sofria, e ela estava fora do meu alcance.
página 18.

Quando o prazo findou, espiei por trás do biombo e eis que lá estava Bartleby!
Abotoei o meu casaco, refleti, andei devagar na sua direção, toquei no seu ombro e disse: “Chegou a hora; você tem que ir embora; sinto muito; aqui está o seu dinheiro; mas você tem que ir”.
“Acho melhor não”, respondeu, de costas para mim.
“Mas precisa.”
Permaneceu em silêncio.
página 22.

Editora Cosacnaify, Iª reimpressão, 2005.

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