quarta-feira, 13 de agosto de 2008

A Náusea, de Jean-Paul Sartre

Diário

Segunda-feira, 19 de janeiro de 1932

Já não posso duvidar de que alguma coisa me aconteceu. Isso veio como uma doença, não como uma certeza comum, não como uma evidência. Instalou-se pouco a pouco, sorrateiramente: senti-me um pouco estranho, um pouco incômodo, e isso foi tudo. Uma vez no lugar, não mais se mexeu, ficou quieto e pude me persuadir de que não tinha nada, que era um alarme falso. E eis que agora a coisa se expande.
página 17.

Portanto, ocorreu uma mudança durante essas últimas semanas. Mas onde? É uma mudança abstrata que não se fixa em nada. Fui eu que mudei? Se não fui eu, então foi esse quarto, essa cidade, essa natureza; é preciso decidir.
Acho que fui eu que mudei: é a solução mais simples. A mais desagradável também. Mas enfim tenho que reconhecer que sou sujeito a essas transformações súbitas. O que acontece é que penso muito raramente; então, uma infinidade de pequenas metamorfoses se acumulam em mim, sem que eu me dê conta, e aí, um belo dia, ocorre uma verdadeira revolução. Foi isso que deu à minha vida esse aspecto vacilante, incoerente.
página 18.

Esse jovens me maravilham: bebendo seu café, contam histórias inteligíveis e verossímeis. Se lhes perguntamos o que fizeram ontem, não se perturbam: informam-nos em duas palavras. No lugar deles, eu gaguejaria. É verdade que faz já muito tempo que ninguém se preocupa com o que faço. Quando se vive sozinho, já nem mesmo se sabe o que é narrar: a verossimilhança desaparece junto com os amigos. Também os acontecimentos deixamos correr; vemos surgir bruscamente pessoas que falam e que se vão, mergulhamos em histórias sem pé nem cabeça: seríamos testemunhas execráveis. Em compensação, tudo o que é inverossímil, tudo o que não seria acreditado nos cafés, não nos escapa.
página 22.

Sofre com avareza. Também deve ser avara em relação a seus prazeres. Pergunto-me se algumas vezes não deseja se libertar dessa dor monótona, desses resmungos que recomeçam tão logo pára de cantar, se não deseja sofrer muito de uma vez por todas, se afogar no desespero. Mas, de qualquer maneira, não poderia fazê-lo: está atada.
página 28.

As coisas não vão bem! Absolutamente não vão bem: estou com ela, com a sujeira, com a Náusea. E dessa vez é diferente: isso me veio num café. Até agora os cafés eram meu único refúgio, porque estão cheios de gente e são bem iluminados: já não haverá nem isso; quando me sentir encurralado em meu quarto, já não saberei aonde ir.
página 37.

Então fui acometido pela Náusea, me deixei cair no banco, já nem sabia onde estava; via as cores girando lentamente em torno de mim, sentia vontade de vomitar. E é isso: a partir daí a Náusea não me deixou, se apossou de mim.
página 38.

Sua camisa de algodão azul sobressai alegremente contra a parede cor de chocolate. Também isso me dá a Náusea. Ou antes, é a Náusea. A Náusea não está em mim: sinto-a ali na parede, nos suspensórios, por todo lado ao redor de mim. Ela forma um todo com o café: sou eu que estou nela.
página 39.

Estou sozinho, a maioria das pessoas voltaram para seus lares; estão lendo o jornal da tarde e ouvindo rádio. O domingo que termina deixou-lhes um gosto de cinzas e seu pensamento se volta para a segunda-feira. Mas para mim não existem segunda-feira nem domingo: existem dias que se atropelam desordenadamente e, além disso, lampejos como esse.
página 87.

Só que esse Rollebon me irrita. Finge-se de misterioso nas mínimas coisas. Que terá ido fazer na Ucrânia no mês de agosto de 1804? Fala de sua viagem em termos velados:
“A posteridade julgará se meus esforços, que o sucesso não podia recompensar, mereciam uma renegação brutal e humilhações que tive que suportar em silêncio, quando dispunha de meios para calar os escarnecedores e amedrontá-los.”.
página 92.

Pego sua carta em minha carteira. Ela não escreveu “meu querido Antoine”. No fim da carta não há também nenhuma fórmula de cortesia: “Preciso vê-lo. Anny.” Nada que possa me informar sobre seus sentimentos. Não posso me queixar: reconheço nisso seu amor pelo perfeito. Ela sempre queria realizar “momentos perfeitos”. Se o instante não se prestava para isso, se desinteressava de tudo, a vida desaparecia de seus olhos, ela se arrastava preguiçosamente como uma meninona na idade ingrata.
página 98.

Eu sentia que o êxito do que se empreendia estava em minhas mãos: o instante tinha um sentido obscuro que era preciso elucidar e completar: determinados gestos tinham que ser feitos, determinadas palavras pronunciadas: o peso de minha responsabilidade me esmagava, eu arregalava os olhos e não via nada, debatia-me em meio aos ritos que Anny na hora e esgarçava-os com meus grandes braços como teias de aranha. Nesses momentos ela me odiava.
página 99.

O passado é um luxo de proprietários.
Onde poderia eu conservar o meu? Não se pode colocar o passado no bolso; preciso ter uma casa, arrumá-lo nela. Só possuo meu corpo; um homem inteiramente sozinho, só com seu corpo, não pode reter as lembranças; elas passam através dele. Não deveria me queixar: tudo o que quis foi ser livre.
página 102.

Não é um velho maluco: tem medo. De que tem medo? Quando queremos entender alguma coisa, colocamo-nos diante dela, sozinhos, sem auxílio; todo o passado do mundo de nada adiantaria. E depois ela desaparece e o que pudemos entender desaparece com ela.
página 108.

Aquele homem só vivera para si mesmo. Por um castigo severo e merecido, ninguém viera lhe fechar os olhos no leito de morte. Esse quadro me dava um último aviso: ainda era tempo, eu podia retroceder.
página 126.

Compreendi então tudo que nos separava: o que eu podia pensar a seu respeito não o atingia; não passava de psicologia como a que se faz nos romances. Mas seu julgamento me trespassava como um gládio e questionava até meu direito de existir. E era verdade, sempre me apercebera disso: não tinha o direito de existir. Surgira por acaso, existia como uma pedra, uma planta, um micróbio. Minha vida se desenvolvia ao acaso e em todos os sentidos. Enviava-me às vezes sinais vagos; outras vezes eu percebia apenas um zumbido sem importância.
página 129.

Não era preciso muito tempo para adivinhar a razão de seu prestígio: era amado porque compreendia tudo; podia dizer-se tudo a ele. Parecia-se um pouco com Renan, em suma, mas com mais distinção. Era desses que dizem:
“Os socialistas? Muito bem, vou mais longe do que eles.” Quem o acompanhava por esse caminho perigoso, logo tinha que abandonar, arrepiando-se, a família, a pátria, o direito de propriedade, os valores mais sagrados. Duvidava-se até por um momento do direito de comandar da elite burguesa. Mais um passo e subitamente tudo era restabelecido, maravilhosamente fundamentado em sólidas razões, à antiga. Dando-se volta, quem o acompanhava distinguia atrás de si os socialistas já longe, muito pequenos, agitando seus lenços e gritando: “Esperem-nos.”
Eu álias sabia, por Wakefield, que o Mestre gostava, como ele mesmo dizia com um sorriso, de “dar à luz as almas”. Tendo permanecido jovem, rodeava-se de juventude: recebia com freqüência jovens de boa família que se destinavam à medicina. Wakefield almoçara várias vezes em sua casa. Terminada a refeição passava-se para o fumoir. O professor tratava como homens adultos aqueles estudantes que já não estavam muito longe de seus primeiros cigarros: oferecia-lhes charutos. Estirava-se num divã e falava demoradamente, os olhos semicerrados, rodeado pela multidão ávida de discípulos. Evocava recordações, contava anedotas, das quais extraía uma moralidade picante e profunda. E, se entre esses jovens bem-educados, surgia algum de caráter um pouco mais rebelde, Parrottin se interessava especialmente por ele. Fazia-o falar, ouvia-o atentamente, fornecia-lhe idéias, temas de meditação. Sucedia forçosamente que um dia o rapaz, transbordando de idéias generosas, excitado pela hostilidade dos seus, cansado de pensar sozinho e contra todos, pedia ao Professor que o recebesse a sós; então, balbuciando de timidez, contava-lhe seus pensamentos mais íntimos, suas indignações, suas esperanças. Parrottin apertava-o contra o peito. Dizia: “Compreendo-o, compreendi-o desde o primeiro dia.” Conversavam, Parrottin ia mais longe, mais longe ainda – tão longe que o rapaz tinha dificuldade em acompanhá-lo. Com algumas conversas dessa espécie era possível constatar uma melhora sensível no jovem revoltado. Ele adquiria uma visão clara de si mesmo, aprendia a conhecer os vínculos profundos que o ligavam a sua família, a seu meio; compreendia, enfim, o admirável papel da elite. E para terminar, como por encanto, a ovelha desgarrada, que acompanhara Parrottin passo a passo, se encontrava de volta no redil, esclarecida, arrependida. “Ele curou mais almas”, concluía Wakefield, “do que curei corpos.”
página 133.

Levanto-me de chofre: se pelo menos pudesse parar de pensar, já seria melhor. Os pensamentos são o que há de mais insípido. Mais insípido ainda do que a carne. Prolongam-se interminavelmente e deixam um gosto esquisito.
página 150.

Por exemplo, essa espécie de ruminação dolorosa: existo – sou eu que a alimento. Eu. O corpo vive sozinho, uma vez que começou a viver. Mas o pensamento, sou eu que o continuo, que o desenvolvo. Existo. Penso que existo. Oh! Que serpentina comprida esse sentimento de existir – e eu a desenrolo muito lentamente...
página 150.

Tudo está cheio, existência por todo lado, densa e pesada e suave. Mas, para além de toda essa suavidade, inacessível, bem perto, tão longe, lamentavelmente, jovem, impiedoso e sereno, existe esse...esse rigor.
página 155.

Percorro a sala com o olhar e um asco violento me invade. Que estou fazendo aqui? Porque me meti a discutir sobre o humanismo? Por que estão aqui essas pessoas? Porque comem? É verdade que elas não sabem que existem. Sinto vontade de ir embora, de ir a algum lugar onde pudesse estar realmente em meu lugar, onde me encaixasse...Mas meu lugar não é em parte alguma; eu sou demais.
página 181.

Os homens. É preciso amar os homens. Os homens são admiráveis. Sinto vontade de vomitar – e de repente aqui está ela: a Náusea.
Uma bela crise: me sacode de alto a baixo. Há uma hora que a sentia se aproximar, só que não queria confessá-lo a mim mesmo.
página 181.

Então é isso a Náusea: essa evidência ofuscante? Como quebrei a cabeça! Como escrevi a respeito dela! Agora sei: Existo – o mundo existe – e sei que o mundo existe. Isso é tudo. Mas tanto faz para mim. É estranho que tudo me seja tão indiferente: isso me assusta. Foi a partir do famigerado dia em que quis fazer ricocheteios. Ia atirar o seixo, olhei para ele, foi então que tudo começou: senti que ele existia. E a seguir, depois disso, houve outras Náuseas; de quando em quando os objetos se põem a existir em nossa mão.
página 182.

O verdadeiro mar é frio e negro, cheio de animais; rasteja sob essa fina película verde que é feita para enganar as pessoas. Os silfos que me rodeiam caíram no logro: só vêem a fina película, é ela que prova a existência de Deus.
página 184.

Não posso dizer que me sinta aliviado nem contente; ao contrário, me sinto esmagado. Só que meu objetivo foi atingido: sei o que desejava saber; compreendi tudo o que me aconteceu a partir do mês de janeiro. A Náusea não me abandonou e não creio que me abandone tão cedo; mas já não estou submetido a ela, já não se trata de uma doença, nem de um acesso passageiro: a Náusea sou eu.
página 187.

O essencial é a contingência. O que quero dizer é que, por definição, a existência não é a necessidade. Existir é simplesmente estar presente; os entes aparecem, deixam que os encontremos, mas nunca podemos deduzi-los. Creio que há pessoas que compreenderam isso. Só que tentaram superar essa contingência inventando um ser necessário e causa de si próprio. Ora, nenhum ser necessário pode explicar a existência: a contingência não é uma ilusão, uma aparência que se pode dissipar; é o absoluto, por conseguinte a gratuidade perfeita. Tudo é gratuito: esse jardim, essa cidade e eu próprio. Quando ocorre que nos apercebamos disso, sentimos o estômago embrulhado, e tudo se põe a flutuar como outra noite no Rendez-vous des Cheminots: é isso a Náusea; é isso que os Salafrários – os do Coteau Vert e os outros – tentam esconder de si mesmos com sua idéia de direito. Mas que mentira pobre: ninguém possui o direito; eles são inteiramente gratuitos, como os outros homens, não conseguem deixar de se sentir demais. E em si mesmos, secretamente, são demais, isto é, amorfos e vagos, tristes.
página 193.

Pensar que há imbecis que tiram consolo das belas-artes. Como minha tia Bigeois: “Os prelúdios de Chopin representaram uma tal ajuda para mim na morte de seu pobre tio.” E as salas de concerto transbordam de humilhados, de ofendidos que, com os olhos fechados, procuram transformar seus rostos pálidos em antenas receptoras. Imaginam que os sons captados correm neles, suaves e nutrientes, e que seus sofrimentos se transformam em música, como os do jovem Werther; pensam que a beleza é compassiva para com eles. Imbecis.
página 252.

E também eu quis ser. Aliás, só quis isso; eis a chave de minha vida: no fundo de todas essas tentativas que parecem desvinculadas, encontro o mesmo desejo: expulsar a existência para fora de mim, esvaziar os instantes de sua gordura, torcê-los, secá-los, me purificar, endurecer, para produzir finalmente o som claro e preciso de uma nota de saxofone. Isso poderia até constituir um apólogo: era uma vez um pobre sujeito que se enganou de mundo. Existia, com as outras pessoas, no mundo dos jardins públicos, dos bistrôs, das cidades comerciais, e queria se persuadir de que vivia alhures, atrás da tela dos quadros, com os doges de Tintoretto, com os dignos florentinos de Gozzoli, atrás das páginas dos livros, com Fabrice Del Dongo e Julien Sorel, atrás dos discos de gramofone, com os lamentos longos e secos do jazz. E depois, após ter se comportado muito tempo como imbecil, compreendeu, abriu os olhos e viu que havia um mal-entendido: ele estava num bistrô, exatamente, diante de um copo de cerveja morna. Ficou prostrado no banco; pensou: sou um imbecil. E nesse exato momento, do outro lado da existência, nesse outro mundo que se pode ver de longe, mas sem nunca se aproximar dele, uma pequena melodia começou a dançar, a cantar: “É preciso ser como eu; é preciso sofrer em compasso.”
Página 254.

A voz canta:

Some of these days
You’ll miss me honey

Editora Record/Altaya, Éditions Gallimard, 1938.