quinta-feira, 4 de setembro de 2008

História Universal da Infâmia, de Jorge Luis Borges

O Espantoso Redentor Lazarus Morell

Os homens

Os donos dessa terra operosa e desses negros eram ociosos e ávidos senhores de cabeleira pomposa, que moravam em amplos casarões à beira do rio – sempre com um pórtico de pinheiro branco em falso estilo grego. Um bom escravo custava-lhes mil dólares e não durava muito. Alguns cometiam a ingratidão de ficar doentes e morrer. Era preciso tirar dessa gente incerta o maior rendimento.
página 23.

O método

Os cavalos roubados num estado e vendidos noutro foram apenas uma digressão na carreira delinqüente de Morell, mas prefiguraram o método que hoje lhe assegura um bom lugar na História Universal da Infâmia. Esse método é único, não apenas pelas circunstâncias sui generis que o produziram como também pela vileza que exige, por seu fatal manejo da esperança e por seu gradual desenvolvimento, semelhante à dolorosa evolução de um pesadelo.
página 24.

O Incrível Impositor Tom Castro

Sabemos que era filho de um açougueiro, que sua infância conheceu a miséria insípida dos bairros baixos de Londres e que sentiu o chamamento do mar. O fato não é insólito. Run away to the sea – fugir para o mar – é a ruptura tradicional inglesa da autoridade paterna, a iniciação heróica. A geografia recomenda e até mesmo a Escritura (Salmo CVII): “Os que descem ao mar em navios, os que comerciam nas grandes águas, esses vêem as obras de Deus e suas maravilhas no abismo”.
página 29.

Ad Majorem Dei Gloriam

O bem-sucedido reconhecimento que parece cumprir uma tradição das tragédias clássicas devia coroar esta história, deixando três felicidades asseguradas ou pelo menos prováveis: a da mãe verdadeira, a do filho apócrifo e tolerante, a do conspirador recompensado pela apoteose providencial de sua astúcia. O Destino (tal é o nome que damos à infinita operação incessante de milhares de causas embaralhadas) não decidiu dessa forma.
página 32.

A Víuva Ching, Pirata

Fala Kia-King, O Jovem Imperador

Em meados de 1809, foi baixado um edito imperial, do qual transcrevo a primeira e a última parte. Muitos criticaram seu estilo.

Homens desventurados e malignos, homens que desprezam o pão, homens que não atendem ao clamor dos cobradores de impostos e dos órfãos, homens em cuja roupa interior estão figurados a fênix e o dragão, homens que negam a verdade dos livros impressos, homens que deixam suas lágrimas correr olhando para o norte perturbam a paz de nossos rios e a antiga confiança de nossos mares. Em barcos avariados e sem firmeza afrontam noite e dia a tempestade. Seu objetivo não é favorável: não são nem foram nunca os verdadeiros amigos do navegante. Longe de lhe prestar ajuda, atacam-no com ferocíssimo impulso e o levam à ruína, à mutilação ou à morte. Violam assim as leis naturais do Universo, de sorte que os rios transbordam, as margens se alagam, os filhos se voltam contra os pais e os princípios de umidade e de seca são alterados...
...Por conseguinte, te recomendo o castigo, almirante Kuo-Lang. Não esqueças que a clemência é um atributo imperial e que seria presunção num súdito procurar assumi-la. Sê cruel, sê justo, sê obedecido, sê vitorioso.
página 38.

O Provedor de Iniqüidades Monk Eastman

A Batalha de Rivington

Que sentiram os protagonistas dessa batalha? Primeiro, creio, a brutal convicção de que o estrépito insensato de cem revólveres ia aniquilá-los em seguida; segundo, creio, a não menos errônea certeza de que, se a descarga inicial não os tinha derrubado, eram invulneráveis. O certo é que lutaram com fervor, amparados pelo ferro e pela foice.
página 45.

O descortês mestre-de-cerimônias Kotsuké no Suké

O infame deste capítulo é o descortês mestre-de-cerimônias Kotsuké no Suké, infausto funcionário que motivou a degradação e a morte do senhor da torre de Ako e que não se quis eliminar como um cavalheiro quando a justa vingança o ameaçou. É homem que merece a gratidão de todos os homens, porque despertou preciosas manifestações de lealdade e foi a negra e necessária ocasião de uma empresa imortal.
página 53.

O Homem de Satsuma

Entre os peregrinos que chegam há um rapaz cansado e cheio de pó que deve ter vindo de longe. Prostra-se ante o monumento de Oishi Kuranosuké, o conselheiro, e diz em voz alta: “Eu te vi atirado na porta de um lupanar de Quioto e não pensei que estavas meditando a vingança de teu senhor, e te acreditei um soldado sem fé e te cuspi no rosto. Vim dar-te uma satisfação”. Disse isso e praticou o haraquiri.
O prior se condoeu de sua valentia e lhe deu sepultura no lugar onde os capitães repousam.
Este é o final da história dos quarenta e sete homens leais – só que ela não tem final, porque nós, os outros homens, que não somos leais talvez, mas que nunca perderemos de todo a esperança de sê-lo, continuaremos a honrá-los com palavras.
página 57.

O Tintureiro Mascarado Hákim de Merv

Os espelhos abomináveis

A terra que habitamos é um erro, uma incompetente paródia. Os espelhos e a parternidade são abomináveis, porque a multiplicam e afirmam. A náusea é a virtude fundamental. Duas disciplinas (cuja escolha o Profeta deixava livre) podem conduzir-nos a ela: a abstinência e a dissolução, o exercício da carne ou sua castidade.
O paraíso e o inferno de Hákim não eram menos desesperados. “Aos que negam a Palavra, aos que negam o Adorado Véu e o Rosto”, diz uma imprecação da Rosa Escondida ainda existente, “prometo um inferno maravilhoso, porque cada um deles reinará sobre 999 impérios de fogo, e em cada império 999 montes de fogo, e em cada monte 999 torres de fogo, e em cada torre 999 pisos de fogo, e em cada piso 999 leitos de fogo, e em cada leito estará ele e 999 forma de fogo (que terão sua face e sua voz) o torturarão para sempre”. Em outro lugar, corrobora: “Aqui na vida padeceis num corpo; na morte e na Retribuição, em inumeráveis. O paraíso é menos concreto. Sempre é noite e existem cisternas de pedra, e a felicidade desse paraíso é a felicidade peculiar das despedidas, da renúncia e dos que sabem que dormem”.
página 63.

Editora Globo, 1993.