sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

O Estrangeiro, de Albert Camus

Primeira parte

Isto me permitiria viver em Paris e viajar durante parte do ano.
- Você é novo e acho que essa vida lhe agradaria.
Disse que sim, mas que no fundo tanto fazia. Perguntou-me, depois, se eu não estava interessado em uma mudança. Respondi que nunca se muda de vida; que, em todo caso, todas se equivaliam, e que a minha aqui não me desagradava em absoluto. Mostrou-se descontente, ponderando que eu respondia sempre à margem das questões, que não tinha ambição e que isto era desastroso nos negócios. Voltei então para o meu trabalho. Teria preferido não o aborrecer, mas não via razão alguma para mudar minha vida. Pensando bem, não era infeliz. Quando era estudante, tinha muitas ambições desse gênero. Mas, quando tive de abandonar os estudos, compreendi muito depressa que essas coisas não tinham real importância.
página 45.

Falei-lhe, então, sobre a proposta do patrão e Marie disse que gostaria de conhecer Paris. Contei-lhe que vivera lá durante algum tempo, e ela me perguntou como era.
- É uma cidade suja. Há pombos e pátios escuros. As pessoas têm a pele branca.´
página 46.

Masson queria cair no mar, mas a mulher e Raymond não queriam ir. Descemos os três e Marie atirou-se logo na água. Masson e eu esperamos um pouco. Ele falava devagar e notei que tinha o hábito de completar tudo quanto dizia por “e digo mais”, mesmo quando, no fundo, nada acrescentava ao sentido da frase.
página 54.

No mesmo momento, o suor acumulado nas sobrancelhas correu de repente pelas pálpebras, recobrindo-as com um véu morno e espesso. Meus olhos ficaram cegos por trás desta cortina de lágrimas e sal. Sentia apenas os símbolos do sol na testa e, de modo difuso, a lâmina brilhante da faca sempre diante de mim. Esta espada incandescente corroia as pestanas e penetrava meus olhos doloridos. Foi então que tudo vacilou. O mar trouxe um sopro espesso e ardente. Pareceu-me que o céu se abria em toda a sua extensão deixando chover fogo. Todo o meu ser se retesou e crispei a mão sobre o revólver. O gatilho cedeu, toquei o ventre polido da coronha e foi aí, no barulho ao mesmo tempo seco e ensurdecedor, que tudo começou.
página 63.

Segunda parte

Foi pouco depois que ela me escreveu. E foi a partir desse momento que começaram as coisas de que jamais gostei de falar. De qualquer forma, não vale a pena exagerar, e isto foi mais fácil para mim do que para outros. No início de minha detenção, no entanto, o mais difícil é que tinha pensamentos de homem livre.
página 80.

Assim, com as horas de sono, as recordações, a leitura da minha ocorrência e a alternância da luz e da sombra, o tempo passou. Tinha lido que na prisão se acabava perdendo a noção do tempo. Mas para mim isto não fazia muito sentido. Não compreendera ainda até que ponto os dias podiam ser, ao mesmo tempo, curtos e longos. Longos para viver, sem dúvida, mas de tal modo distendidos que acabavam por se sobrepor uns aos outros. E nisso perdiam o nome. As palavras ontem ou amanhã eram as únicas que conversavam um sentido para mim.
página 84.

Compreendi que ele ia falar novamente em mamãe e senti ao mesmo tempo até que ponto isso me entediava. Perguntou-me por que a mandara para o asilo. Respondi que era porque não tinha dinheiro para mantê-la comigo e cuidar dela. Perguntou-me se, pessoalmente, sofrera com o fato, e respondi que nem mamãe nem eu esperávamos mais nada um do outro, nem, aliás, de ninguém, e que nós dois nos havíamos habituado às nossas vidas.
página 91.

A sessão foi suspensa. Ao sair do Palácio da Justiça para entrar no carro, reconheci por um instante o cheiro e a cor da tarde de verão. Na obscuridade da minha prisão rolante, reencontrei um a um, no fundo do meu cansaço, todos os ruídos familiares de uma cidade que eu amava e de uma certa hora em que me ocorria ficar contente.
página 101.

Pela terceira vez, recusei-me a receber o capelão. Nada tenho a dizer-lhe, não tenho vontade de falar, de qualquer forma irei vê-lo muito em breve. O que me interessa neste momento é fugir à engrenagem, saber se o inevitável pode ter uma saída.
página 112.

Censurava-me, então, por não ter prestado bastante atenção às histórias de execuções. Devíamos interessar-nos sempre por estas questões. Nunca se sabe o que pode acontecer.
página 112.

Era de madrugada que viriam, eu sabia. Ocupei as minhas noites, em suma, a esperar por esta madrugada. Nunca gostei de ser surpreendido. Quando me acontece alguma coisa, prefiro estar presente. Eis por que no final acabei por só dormir um pouco de dia, enquanto ao longo de minhas noites esperava pacientemente que a luz nascesse na vidraça do céu. O mais difícil era a hora duvidosa em que eu sabia que eles geralmente agiam. Depois da meia-noite, esperava e ficava à espreita. Nunca o meu ouvido captara tantos ruídos e distinguira sons tão tênues. Aliás, posso afirmar que de certo modo tive sorte durante todo este período, pois nunca cheguei a ouvir passos. Mamãe costumava dizer que nunca se é completamente infeliz. Concordava com ela na prisão quando o céu se coloria e um novo dia se insinuava na minha cela. Porque poderia ter ouvido passos e meu coração poderia ter arrebentado.
página 116.

Editora Record, 2007.

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