sábado, 21 de abril de 2012

Claraboia, de José Saramago



  As duas irmãs, impressionadas pela música, ferviam de sagrada cólera.
- Isto parece impossível – declarou, por fim, Amélia – Não é querer ser mais que os outros, mas parece impossível que haja quem goste daquela música de doidos!
- Há quem goste, tia – disse Adriana.
- Isso vejo eu!
- Nem toda a gente foi habituada como nós – acrescentou Isaura.
- Também sei. Mas entendo que toda a gente devia ser capaz de separar o trigo do joio. O que é mau, de um lado; o que é bom, do outro.
Cândida, que retirava os pratos do armário, ousou contrapor:
- Não pode ser. O mal e o bem, o bom e o mau, andam sempre misturados. Nunca se é completamente bom ou completamente mau. Acho eu – acrescentou timidamente.
Amélia virou-se para a irmã, empunhando a colher com que provava a sopa:
- Essa não está má. Nesse caso, não tens a certeza de que é bom aquilo de que gosta?
- Não, não tenho.
- Então, por que gostas?
- Gosto porque acho que é bom, mas não sei se é bom.
página 84.

         Se Rosália proporcionasse a “deixa” necessária, Anselmo enveredaria por um longo solilóquio em que exporia, uma vez mais, as suas definitivas idéias sobre a condição do homem em geral e dos empregados de escritório em particular. Não tinha muitas idéias, mas tinha-as definitivas. E a principal, da qual todas as outras eram satélites e conseqüentes, consistia na profunda convicção de que o dinheiro é (palavras suas) a mola-real da vida. Que para o alcançar todos os processos são bons, desde que a dignidade não sofra com eles. Esta ressalva era muito importante, porque Anselmo tinha, como poucos, o culto da dignidade.
página 90.

Só Justina, como se nada tivesse ouvido, permaneceu tranqüila. Em casa, apenas abria a boca, para dizer as palavras indispensáveis, e não considerava indispensável tomar partido do animal. Vivia dentro de si mesma, como se estivesse sonhando um sonho sem princípio nem fim, um sonho sem assunto de que não queria acordar, um sonho todo feito de nuvens que passavam silenciosas encobrindo um céu de que já se esquecera.
página 97.

         - Quando fores crescido, hás de querer ser feliz. Por enquanto não pensas nisso e é por isso mesmo que o és. Quando pensares, quando quiseres ser feliz, deixarás de sê-lo. Para nunca mais! Talvez para nunca mais!...Ouviste? Para nunca mais. Quanto mais forte for o teu desejo de felicidade, mais infeliz serás. A felicidade não é coisa que se conquiste. Hão de dizer-te que sim. Não acredites. A felicidade é ou não é.
página 105.

         - Ele não é mau homem. Calado...Não gosto dos homens calados, mas este não é mau. Ela é que é uma víbora. E galega, ainda por cima...
         - Galega? Mas que tem isso?
         Silvestre arrependeu-se do modo depreciativo como pronunciara a palavra:
         - Isto é um modo de dizer. Mas bem conhece o ditado: “De Espanha, nem bom vento, nem bom casamento...”.
página 113.

         - Por que é que vive assim? Desculpe, se sou indiscreto...
         - Não é indiscreto. Vivo assim porque quero. Vivo assim porque não quero viver de outro modo. A vida como os outros a entendem não tem valor para mim. Não gosto de ser agarrado e a vida é um polvo de muitos tentáculos. Um só basta para prender um homem. Quando me sinto preso, corto o tentáculo. Às vezes, faz doer, mas não há outro remédio. Compreende?
página 123.

Decerto gostava do filho: fora ele que o gerara, não podia deixar de gostar. O contrário seria antinatural. Mas sentia bem que, naquela casa, era um estranho, que nada do que o rodeava, embora comprado com o seu dinheiro, lhe pertencia efetivamente. Ter não é possuir. Pode ter-se até aquilo que se não deseja. A posse é o ter e o desfrutar o que se tem. Tinha uma casa, uma mulher e um filho, mas nada era, efetivamente, seu. De seu, só tinha a si mesmo, e não completamente.
página 156.

Os móveis eram pobres, mas limpos, e tinham um ar de dignidade. Não há dúvida de que, assim como os animais domésticos – o cão e o gato, pelo menos – refletem o temperamento e o caráter dos donos, também os móveis e os objetos insignificantes de uma casa refletem alguma da vida de seus proprietários. Deles se desprende frieza ou calor, cordialidade ou reserva. São testemunhas que a toda hora estão contando, numa linguagem silenciosa, o que viram e o que sabem.
página 186.

         A pancada da porta ao fechar-se sobressaltou Lídia. Estava só. O cigarro ardia lentamente entre os dedos. Estava só como três anos antes, quando conhecera Paulino Morais. Acabara-se. Era preciso recomeçar. Recomeçar. Recomeçar...
         Devagar, duas lágrimas brilharam-lhe nos olhos. Oscilaram um momento, suspensas da pálpebra inferior. Depois, caíram. Só duas lágrimas. A vida não vale mais do que duas lágrimas.
página 323.

         Claudinha não dormia. E não era a alegada e verídica dor de cabeça que lhe tirava o sono. Recordava a conversa com o patrão. As coisas não se tinham passado tão simplesmente como contara aos pais. Não tivera a menor dificuldade em saber, mas o que se seguira é que não podia ser facilmente contado. Nada de grava se passara, nada que, vendo bem, não pudesse e não devesse ser contado. Mas era difícil. Nem tudo o que parece, é, nem tudo o que é, o parece ser. Mas entre o ser e o parecer há sempre um ponto de entendimento, como se ser e parecer fossem dois planos inclinados que convergem e se unem. Há um declive, a possibilidade de escorregar nele, e, assim acontecendo, chega-se ao ponto em que, ao mesmo tempo, se contacta com o ser o parecer.
página 332

         Foi jantar ao restaurante caro. A comida era boa e o vinho também. Ficou com pouco dinheiro depois de todas estas despesas extraordinárias, mas não se arrependeu. Não se arrependia de nada. Não fizera mal de que devesse arrepender-se. Era livre, não tão livre como as aves, que essas não têm obrigações a cumprir, mas pelo menos tanto quanto podia esperar.
página 345.

         Sentiam-se, ao mesmo tempo, felizes e tristes. Felizes por se amarem, tristes por se separarem. Foi o último jantar em comum. Outros haveria, por certo, mais tarde, quando tudo se acalmasse e Abel pudesse voltar, mas seriam diferentes. Já não seria a reunião de três pessoas que vivem debaixo do mesmo teto, que dividem as alegrias e tristezas entre si, como o pão e o vinho. A única compensação estava no amor, não o amor obrigatório do parentesco, tantas vezes um fardo imposto pelas convenções, mas o amor espontâneo que de si mesmo se alimenta.
página 365.

         - Desculpe se o magôo, mas tudo isso é uma utopia. A vida é uma luta de feras, a todas as horas e em todos os lugares. É o “salve-se quem puder”, e nada mais. O amor é o pregão dos fracos, o ódio é a arma dos fortes. Ódio aos rivais, aos concorrentes, aos candidatos ao mesmo bocado de pão ou de terra, ou ao mesmo poço de petróleo. O amor só serve para chacota ou para dar oportunidade aos fortes de se deliciarem com as fraquezas dos fracos. A existência dos fracos é vantajosa como recreio, serve de válvula de escape.
página 369.

         - Tem razão, meu amigo. Mas talvez tenha de ser assim durante muito tempo...O dia em que será possível construir sobre o amor não chegou ainda...

Editora Companhia das Letras, 2011.