A insustentável leveza do ser, de Milan Kundera
Primeira parte
A leveza e o peso
"O eterno retorno é uma idéia misteriosa e, com ela, Nietzche pôs muitos filósofos em dificuldade: pensar que um dia tudo vai se repetir como foi vivido e que tal repetição ainda vai se repetir indefinidamente! O que significa esse mito insensato?"
página 9.
"Digamos, portanto, que a idéia do eterno retorno designa uma perspectiva em que as coisas não parecem ser como nós as conhecemos: elas aparecem para nós sem a circunstância atenuante de sua fugacidade. Com efeito, essa circunstância atenuante nos impede de pronunciar qualquer veredicto. Como condenar o que é efêmero? As nuvens alaranjadas do crepúsculo douram todas as coisas com o encanto da nostalgia; até mesmo a guilhotina.
Não faz muito tempo, surpreendi-me experimentando uma sensação incrível: folheando um livro sobre Hitler, fiquei emocionado com algumas fotos dele; lembravam-me o tempo de minha infância; eu a vivi durante a guerra; diversos membros de minha família foram mortos nos campos de concentração nazistas; mas o que era a sua morte diante dessa fotografia de Hitler que me lembrava um tempo passado da minha vida, um tempo que não voltaria mais?
Essa reconciliação com Hitler trai a profunda perversão moral interente a um mundo fundado essencialmente sobre a inexistência do retorno, pois nesse mundo tudo é perdoado por antecipação e tudo é, portanto, cinicamente permitido."
página 10.
Segunda parte
A alma e o corpo
"Nossa vida cotidiana é bombardeada por acasos, mais exatamente por encontros fortuitos entre as pessoas e os acontecimentos, o que chamamos de coincidências. Existe coincidência quando dois acontecimentos inesperados se dão ao mesmo tempo, quando eles se encontram: Tomas aparece no restaurante no momento em que o rádio toca Beethoven."
página 54.
"Além de eloqüentes, esses sonhos eram belos. Esse é um aspecto que escapou a Freud na sua teoria dos sonhos. O sonho não é apenas uma comunicação (às vezes uma comunicação codificada), é também uma atividade estética, um jogo da imaginação, e esse jogo tem em si mesmo um valor. O sonho é a prova de que imaginar, sonhar com aquilo que não aconteceu, é uma das mais profundas necessidades do homem. Eis aí a razão do perigo pérfido que se esconde no sonho. Se o sonho não fosse belo, poderia ser rapidamente esquecido. Mas Tereza voltava sem cessar a seus sonhos, repetia-os em pensamento, transformava-os em lendas. Tomas vivia sob o encanto hipnótico da beleza dilacerante dos sonhos de Tereza."
página 60.
"Quem vive no exterior caminha num espaço vazio acima do solo sem a rede de proteção que o país de origem estende a todo ser humano, onde ele tem família, colegas, amigos, e onde é compreendido sem dificuldade no idioma que sabe falar desde a infância. Em Praga, ela dependia de Tomas, é verdade, mas somente de coração. Ali, dependia dele para tudo. O que seria dela ali se ele a abandonasse? Devia passar toda a vida com medo de perdê-lo?"
página 75.
"Não, não era superstição, era o senso da beleza, que de repente a libertava da angústia e a enchia de um desejo renovado de viver. Mais uma vez, os pássaros dos acasos haviam pousado nos seus ombros. Tinha lágrimas nos olhos e estava infinitamente feliz por ouvi-lo respirar a seu lado."
página 78.
Terceira parte
As palavras incompreendidas
A fidelidade e a traição
"Ele a amara desde a infância até o momento em que a acompanhara ao cemitério, e a amava em suas recordações. Isso o levara a pensar que a fidelidade é a primeira de todas as virtudes; ela dá unidade à nossa vida, que, sem ela, iria se estilhaçar em mil impressões fugidias."
página 90.
Quarta parte
A alma e o corpo
"Muitas vezes nos refugiamos no futuro para escapar do sofrimento. Imaginamos uma linha na estrada do tempo e que além dessa linha o sofrimento presente deixará de existir. Mas Tereza não via essa linha diante de si. Só podia encontrar consolo olhando para trás. Mais uma vez era domingo. Pegaram o carro e foram para longe de Praga".
página 162.
"Saiu e tomou a direção do cais. Queria ver o Vltava. Queria parar à sua margem e olhar demoradamente para a água, pois a visão da água fluindo acalma e cura. O rio corre de século em século e as histórias dos homens se desenrolam na margem. Acontecem para ser esquecidas amanhã e para que o rio não pare de correr."
página 167.
Quinta parte
A leveza e o peso
"E, mais uma vez, vejo-o como me pareceu no começo deste romance. Está à janela e olha, do outro lado do pátio, a parede do prédio defronte.
Ele nasceu dessa imagem. Como já disse, os personagens não nascem de um corpo materno como os seres vivos, mas de uma situação, uma frase, uma metáfora que contém em embrião uma possibilidade humana fundamental que o autor imagina não ter sido ainda descoberta ou sobre a qual nada de essencial ainda foi dito."
página 216.
Sexta parte
A grande marcha
"Esta é uma palavra alemã que apareceu em meados do sentimental século XIX e que em seguida se espalhou por todas as línguas. Mas o uso frequente do termo apagou seu valor metafísico original: kitsch, em essência, é a negação absoluta da merda; tanto no sentido literal como no sentido figurado: o kitsch exclui de seu campo visual tudo o que a existência humana tem de essencialmente inaceitável."
página 244.
Sétima parte
O sorriso de Karenin
"Ninguém se visitava, de tempos em tempos, a muito custo alguém ia trocar algumas palavras com um vizinho antes do jantar. Todo mundo sonhava sair dali e ir morar na cidade. O interior não oferecia nada que pudesse dar um pouco de interessa à vida."
página 277.
Editora Companhia das Letras, 2011.
sábado, 5 de janeiro de 2013
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